30. Conhecemos essas coisas. Acaso por isso julgamos que as compreendemos? Não é a discussão que as compreende, mas a santidade, se é que de algum modo se pode compreender o incompreensível. Se não se pudesse, o Apóstolo não teria dito: Para que compreendamos com todos os santos.1 Os santos, portanto, compreendem. Perguntas como? Se és santo, compreendeste e sabes; se não, sê santo e saberás por experiência. Torna santo a afeição santa, e esta é dupla: o santo temor do Senhor e o santo amor. A alma perfeitamente afetada por ambos, como por seus dois braços, compreende, abraça, estreita, segura e diz: Segurei-o e não o soltarei.2 O temor corresponde ao sublime e ao profundo; o amor, ao largo e ao longo. Que há de tão temível como o poder a que não podes resistir e a sabedoria de que não podes esconder-te? Deus poderia ser menos temido se carecesse de um ou de outro. Agora, porém, deves temer perfeitamente aquele a quem não falta nem o olho que tudo vê nem a mão poderosa para tudo. Que há de tão amável como o próprio amor pelo qual amas e és amado? A eternidade unida a ele, contudo, torna-o mais amável: como não passa, expulsa a suspeita. Ama, pois, com perseverança e longanimidade, e tens o comprimento; dilata teu amor até os inimigos, e tens a largura. Sê ainda temeroso em toda solicitude, e apreendeste o sublime e o profundo.
31. Ou, se preferes responder com quatro coisas tuas às quatro divinas, faze-o admirando, tremendo, ardendo e perseverando. Deve-se admirar a sublimidade da majestade; temer o abismo dos juízos. A caridade exige ardor; a eternidade, perseverança para suportar. Quem admira senão aquele que contempla a glória de Deus? Quem teme senão aquele que perscruta a profundidade da sabedoria? Quem arde senão aquele que medita a caridade de Deus? Quem suporta e persevera no amor senão aquele que imita a eternidade da caridade? A perseverança apresenta certa imagem da eternidade. Enfim, somente a ela é dada a eternidade, ou antes, é ela que devolve o homem à eternidade, pois diz o Senhor: Quem perseverar até o fim será salvo.3
32. Nota agora nestas quatro coisas quatro espécies de contemplação. A primeira e maior contemplação é a admiração da majestade. Requer um coração purificado que, livre dos vícios e aliviado dos pecados, eleve-se facilmente às coisas superiores e às vezes mantenha aquele que admira suspenso por algum tempo no assombro e no êxtase. A segunda, que lhe é necessária, contempla os juízos de Deus. Por esse olhar temeroso, enquanto abala com maior força aquele que contempla, afugenta os vícios, funda as virtudes, inicia na sabedoria e conserva a humildade. A humildade é fundamento bom e estável das virtudes. Se ela vacila, a reunião das virtudes não é senão ruína. A terceira contemplação ocupa-se — ou antes, repousa — na memória dos benefícios e, para não deixar ingrato aquele que recorda, solicita-o ao amor do benfeitor. De tais coisas diz o profeta, falando ao Senhor: Proclamarão a memória da abundância de tua suavidade.4 A quarta, esquecendo o que ficou para trás, repousa apenas na expectativa das promessas; sendo meditação da eternidade — pois são eternas as coisas prometidas —, alimenta a longanimidade e dá vigor à perseverança. Creio ser fácil atribuir agora estas nossas quatro coisas às quatro do Apóstolo: a meditação das promessas compreende o comprimento; a recordação dos benefícios, a largura; a contemplação da majestade, a sublimidade; a inspeção dos juízos, a profundidade. Ainda devia ser buscado aquele que ainda não foi suficientemente encontrado e que nunca pode ser buscado em excesso; mas talvez seja buscado mais dignamente orando do que discutindo, e encontrado mais facilmente. Seja este, portanto, o fim do livro, mas não o fim da busca.