27. Que é Deus? Comprimento, largura, sublimidade e profundidade. “Quê?”, dizes, “apanhamos-te professando a quaternidade que abominaste.” De modo algum. Abominei-a e abomino-a. Pareceu que proferi várias coisas, mas é uma só. Um só Deus foi significado segundo nossa capacidade, não segundo seu estado. Aqui houve divisão, não nele. Vozes diversas, muitos caminhos, mas por eles se significa um só e busca-se um só. Neste quaternário não se exprimem divisões da substância, dimensões como as que contemplamos nos corpos, distinção pessoal como a que adoramos na Trindade, nem número de propriedades como o que confessamos inerir às próprias pessoas, embora não sejam coisa diversa delas. De outro modo, cada uma dessas quatro coisas é em Deus o mesmo que as quatro juntas, e as quatro juntas, o mesmo que cada uma. Para nós, porém, que não podemos competir com Deus em simplicidade, quando nos esforçamos por apreender o único, ele se apresenta como quadruplicado. Isso faz o espelho e o enigma, pelos quais por ora somente é dado vê-lo. Quando, porém, virmos face a face, veremos como ele é. Então a frágil acuidade de nossa mente, por mais intensamente que se aplique, já não ricocheteará nem se dispersará em sua própria pluralidade; antes se recolherá, unificará e conformará à unidade dele — ou antes, àquela unidade —, para que um rosto responda a um rosto. Seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é.1 Visão bem-aventurada, pela qual suspirava com razão aquele que dizia: Minha face te buscou; tua face, Senhor, buscarei.2 E, como ainda estamos buscando, subamos por ora nesta quadriga, fracos e débeis que somos, necessitados de tal veículo, para talvez apreendermos assim aquilo em que fomos apreendidos, isto é, a razão do próprio veículo. Recebemos esta advertência do auriga e primeiro apresentador deste carro: que procuremos compreender com todos os santos qual é o comprimento, a largura, a sublimidade e a profundidade.3 Disse compreender, não conhecer, para que, não contentes com a curiosidade da ciência, aspiremos com todo cuidado ao fruto. O fruto não está no conhecimento, mas na compreensão. De outro modo, aquele que sabe fazer o bem e não o faz comete pecado, como diz alguém;4 e Paulo, em outro lugar: Correi de tal modo que o alcanceis.5 Explicarei abaixo o que é compreender.
28. Que é, pois, Deus? Comprimento, digo. Que é ele? Eternidade. Tão longa que não tem termo, nem de lugar nem de tempo. É também largura. E esta, que é? Caridade. Por que limites seria estreitada em Deus, que nada odeia do que fez? Faz seu sol nascer sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos.6 Aquele seio inclui, pois, até os inimigos. Não contente com isso, estende-se ao infinito. Excede não só todo afeto, mas também todo conhecimento, pois o Apóstolo acrescenta: Conhecer também a caridade de Cristo, que supera todo conhecimento.7 Que mais direi? É eterna. Ou talvez haja algo maior: é a eternidade. Vês que a largura é tão grande quanto o comprimento? Oxalá vejas não que uma é tão grande quanto a outra, mas que é a outra: que uma é o mesmo que a outra; não menos uma que duas, nem mais duas que uma. Deus é eternidade, Deus é caridade: comprimento sem prolongamento, largura sem extensão. Em ambos excede igualmente as estreitezas locais e temporais, mas pela liberdade da natureza, não pela enormidade da substância. Desse modo é imenso aquele que fez todas as coisas com medida; e, embora imenso, este é o modo de sua própria imensidade.
29. Que é ainda Deus? Sublimidade e profundidade. Em uma, está acima de tudo; na outra, abaixo de tudo. É claro que na divindade a igualdade não claudica em parte alguma, mas permanece firme por toda parte e imóvel em si. Considera na sublimidade seu poder; na profundidade, sua sabedoria8. Correspondem-se igualmente, pois a sublimidade é reconhecida inacessível e a profundidade, igualmente insondável, como Paulo admira e exclama: Ó profundidade das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus! Quão insondáveis são seus juízos e inescrutáveis seus caminhos!9 Agrada também a nós exclamar com Paulo, contemplando de algum modo em Deus e com Deus a simplicíssima unidade dessas coisas: ó sabedoria poderosa, que alcança tudo com força! Ó poder sábio, que dispõe tudo suavemente!10 Uma só realidade, múltiplos efeitos e diversas operações. Essa única realidade é comprimento pela eternidade, largura pela caridade, sublimidade pela majestade, profundidade pela sabedoria.