25. Que é Deus? Não menos pena dos perversos que glória dos humildes. É certa direção racional da equidade, imutável e inflexível, que atinge toda parte; toda perversidade que contra ela se choque necessariamente se perturba. Por que tudo o que é inchado ou torcido não colidiria com ela e seria despedaçado? Ai de tudo que encontrar de frente a retidão que não sabe ceder, pois ela também é fortaleza. Que há de tão contrário e adverso às vontades iníquas como tentar sempre, chocar-se sempre e em vão?1 Ai das vontades opostas, que recebem por pena apenas seu próprio afastamento. Que é tão penal como querer sempre o que nunca será? Que é tão condenado como a vontade sujeita à necessidade de querer e não querer, de modo que já não se mova para nenhum dos dois senão perversa e miseravelmente? Por toda a eternidade não obterá o que quer e suportará igualmente por toda a eternidade o que não quer. É inteiramente digno que aquele que nunca se afeiçoa ao que convém jamais alcance o que lhe agrada. Quem faz isso? O Senhor nosso Deus é reto e com o perverso se mostra perverso. O reto e o depravado jamais concordarão. Opõem-se um ao outro, embora não se lesem reciprocamente. A lesão é de um: longe de Deus que seja dele. Duro te é, diz, recalcitrar contra o aguilhão;2 isto é, duro não para o aguilhão, mas para quem recalcitra. Deus é também pena dos torpes, pois é luz. Que é tão odioso às mentes obscenas e criminosas? Certamente, todo aquele que age mal odeia a luz.3 Mas pergunto: acaso poderão evitá-la? De modo algum. Ela brilha em toda parte, embora não para todos. Brilha nas trevas, e as trevas não a compreenderam.4 A Luz vê as trevas, para a qual ver é o mesmo que luzir; mas não é vista reciprocamente pelas trevas, porque as trevas não a compreendem. São vistas, pois, para sua confusão; e não veem, para não receber consolação. E não apenas são vistas pela luz, mas na luz. Por quem? Por todo aquele que vê, para que seja grande sua confusão pela multidão dos espectadores. Mas, entre tão grande número de olhares, nenhum é mais molesto a cada um do que o próprio. Não há olhar no céu ou na terra de que a consciência tenebrosa queira mais fugir e menos possa. Nem de si mesmas se ocultam as trevas. Veem a si, embora não vejam outra coisa. As obras das trevas as seguem e não há onde delas se esconder, nem mesmo nas trevas. Este é o verme que não morre: a memória do passado. Uma vez introduzido, ou antes nascido pelo pecado, adere firmemente e jamais pode ser arrancado. Não cessa de roer a consciência e, alimentado por ela, alimento inesgotável, perpetua a vida. Horrorizam-me o verme mordaz e a morte vivaz. Horrorizo-me de cair nas mãos da morte que vive e da vida que morre.
26. Esta é a segunda morte, que nunca mata inteiramente, mas mata sempre. Quem lhes dará morrer uma só vez, para não morrerem eternamente? Os que dizem aos montes: Caí sobre nós; e às colinas: Cobri-nos,5 que querem senão pôr fim à morte ou escapar dela pelo benefício da morte? Enfim, diz: Invocarão a morte, e ela não virá.6 Contempla-o mais claramente. Consta que a alma é imortal e nunca vive sem sua memória, para que não aconteça em algum momento já não ser alma. Portanto, enquanto dura a alma, dura a memória. Mas qual? Manchada por crimes, horrenda por delitos, inchada de vaidade, eriçada e negligente pelo desprezo. As coisas anteriores passaram e não passaram. Passaram da mão, não da mente. O que foi feito não pode não ter sido feito. Embora o fazer tenha ocorrido no tempo, o ter feito permanece eternamente. Não passa com o tempo aquilo que atravessa os tempos. Logo, necessariamente te cruciará para sempre lembrares eternamente que agiste mal. Isso será experimentar a verdade daquela palavra: Eu te arguirei e te porei diante de tua face.7 Falou o Senhor, a quem tudo o que é adverso necessariamente se torna também adverso a si mesmo, de modo que será tardia a queixa: Ó guardião dos homens, por que me puseste como contrário a ti e me tornei pesado a mim mesmo?8 Assim é, ó Eugênio. Nada pode ser contrário a Deus e permanecer unido a si mesmo; aquele que for arguido por Deus será também arguido por si. Já então a razão não poderá dissimular a verdade nem a alma desviar o olhar da razão, arrancada dos membros do corpo e recolhida em si. Como o faria, adormecidos e encerrados na morte os sentidos pelos quais costumava sair curiosamente e afastar-se de si para a figura passageira deste mundo? Vês que nada faltará à confusão dos torpes, quando forem apresentados como espetáculo a Deus, aos Anjos, aos homens e a si mesmos? Oh, quão mal estão colocados todos os maus, opostos a esta torrente de reta equidade e expostos a esta luz da verdade manifestada.9 Não é isso ser perpetuamente golpeado e confundido? Com dupla contrição, diz o profeta, esmaga-os, Senhor nosso Deus.10