15. Que é Deus? Aquele em relação ao qual nada melhor pode ser pensado. Se o admites, não deves assentir que exista algo pelo qual Deus seja e que não seja Deus. Isso, sem dúvida, seria melhor. Como não seria melhor que Deus aquilo que dá a Deus o ser, se não fosse Deus? Antes confessamos que aquela divindade pela qual dizem que Deus é não é outra coisa senão Deus. Portanto, em Deus não há senão Deus. “Quê?”, dizem, “negas que Deus tenha divindade?” Não; mas ele é aquilo que tem. Negas que Deus seja pela divindade? Não; mas não por outra senão aquela que ele é. Se encontraste outra, ajude-me a Trindade Deus: levanto-me com toda obstinação contra ela. A quaternidade determina o mundo; não significa a divindade. Deus é Trindade, Deus é cada uma das três pessoas. Se agrada acrescentar uma quarta divindade, persuadi-me ao menos de que aquela que não é Deus não deve ser adorada. Creio que tu também. Com efeito, adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás.1 Gloriosa divindade seria aquela que não ousasse arrogar para si honra divina! Melhor é rejeitar inteiramente essa quarta do que recebê-la sem honra. Muitas coisas se dizem existir em Deus, e catolicamente, mas as muitas são uma só. Se as julgarmos diversas, não teremos quaternidade, mas centena. Dizemos, por exemplo, grande, bom, justo e inúmeras coisas semelhantes; mas, se não considerares todas uma só em Deus e com Deus, terás um Deus múltiplo.
16. A mim não falta algo melhor para pensar que esse teu Deus. Perguntas o quê? A pura simplicidade. Por juízo verdadeiro, a natureza simples é anteposta à múltipla. Sei o que costumam responder: “Não afirmamos que muitas, mas uma só divindade — que é todas essas coisas — confere a Deus o ser.” Afirmais, portanto, ainda que não um Deus múltiplo, um Deus duplo; não chegastes ao puramente simples nem àquilo em relação ao qual nada melhor pode ser pensado. Não é simples aquilo que está sujeito sequer a uma forma, como não é virgem aquela que conheceu sequer um homem. Falo com segurança: nem mesmo aquele que é duplo será meu. Tenho um melhor. Ainda que o anteponha ao numeroso e múltiplo, desprezo-o diante do simples. Meu Deus é catolicamente ele mesmo. Não tem isto e aquilo, como não é este e aquela. É aquele que é, não aquela que é. Puro, simples, íntegro, perfeito, constante consigo mesmo; nada dos tempos, lugares ou coisas atraindo para si, nada de si depositando neles; não tendo o que dividir em número nem coisas que reunir numa unidade. É um, não unificado. Não consta de partes como o corpo; não se divide em afetos como a alma; não está sujeito a formas como tudo o que foi feito; nem sequer a uma forma, como estes julgaram. Grande louvor a Deus seria libertá-lo da informidade contentando-o com uma única forma! Isso é dizer que as outras coisas devem a várias o que são, e Deus deve o que é a uma só. Aquele por cujo benefício as coisas são o que são inclinaria a outro benfeitor para receber o próprio ser? Esse louvor, como se diz vulgarmente, equivale a blasfêmia. Não é melhor não necessitar de nenhum do que de um só? Tem reverência por Deus e atribui-lhe o que é melhor. Se teu coração pôde subir até aqui, como colocarás teu Deus abaixo? Ele é para si forma e essência. Por ora o diviso neste grau; se aparecesse outro melhor, dar-lhe-ia antes esse. Deve-se temer que o pensamento voe além dele? Por mais que progrida em altura, ele está além. Buscar abaixo do que o homem pode pensar o Altíssimo é ridículo; estabelecê-lo ali, ímpio. Deve-se buscá-lo além, não aquém.
17. Sobe ainda, se podes, a um coração mais alto, e Deus será exaltado. Deus não é formado: é forma. Deus não é afetado: é afeição. Deus não é composto: é o puramente simples. Para saberes claramente o que chamo simples: o mesmo que um. Deus é tão simples quanto é um. E é um como nada mais. É, se assim se pode dizer, uníssimo. O sol é um porque não há outro; a lua é uma porque igualmente não há outra. Deus também o é, mas mais. Em quê? É um também para si mesmo. Queres que isso te seja explicado? É sempre o mesmo e de um só modo. Não assim o sol, não assim a lua: ambos proclamam não serem um para si mesmos, aquele por seus movimentos, esta também por seus eclipses. Deus, porém, não é apenas um para si: é um em si. Nada tem em si senão a si mesmo. Não sofre alteração no tempo nem alteridade na substância. Daí diz Boécio: “Isto é verdadeiramente um, no qual não há número nem há nele algo além do que é; pois não pode tornar-se sujeito, porque é forma.” Compara a este um tudo quanto pode ser chamado um, e não será um. Contudo, Deus é Trindade. Então destruímos o que foi dito da unidade porque introduzimos a trindade? Não; estabelecemos a unidade. Dizemos Pai, Filho e Espírito Santo; contudo, não três Deuses, mas um. Que significa esse número, por assim dizer, sem número? Se são três, como não há número? Se são um, onde está o número? “Tenho”, dizes, “o que numerar e o que não numerar. A substância é uma; as pessoas são três.” Que há de admirável ou obscuro nisso? Nada, se as pessoas forem pensadas separadamente da substância. Mas, como aquelas três pessoas são essa substância, e essa única substância é aquelas três pessoas, quem negará o número? Verdadeiramente são três. Quem, porém, os numerará? Verdadeiramente são um. Se julgas fácil explicá-lo dizendo “três”, dize o que numeraste. Naturezas? Há uma. Essências? Uma. Substâncias? Uma. Divindades? Uma. “Não estas, mas as pessoas numero”, dizes. Acaso não são elas aquela única natureza, essência, substância e divindade? És católico: de modo algum o negarás.