13. Ultrapassa agora esses espíritos, para que talvez possas dizer com a esposa: Mal os ultrapassei, encontrei aquele que minha alma ama.1 Quem é ele? Nada ocorre mais acertadamente do que: Aquele que é. Assim quis ele responder de si; assim ensinou, quando ordenou a Moisés dizer ao povo: Aquele que é enviou-me a vós.2 Com razão: nada convém mais à eternidade, que é Deus. Se disseres de Deus que é bom, grande, bem-aventurado, sábio ou algo semelhante, tudo se encerra nesta palavra: É. Pois ser, para ele, é ser tudo isso. Se acrescentares cem coisas semelhantes, não te afastaste do ser. Se as disseres, nada acrescentaste; se não as disseres, nada diminuíste. Se viste esse ser tão singular e supremo, em comparação com ele não julgas que tudo quanto não é isso antes não seja do que seja? Que é ainda Deus? Aquele sem o qual nada é. Tanto nada pode ser sem ele quanto ele não pode ser sem si mesmo. Ele é para si, ele é para todos. Por isso, de certo modo, só ele é aquele que é seu próprio ser e o ser de todas as coisas. Que é Deus? Princípio; foi essa a resposta que deu de si.3 Muitas coisas são chamadas princípios, mas em relação às posteriores. Se olhares para algo precedente, antes a este darás o nome de princípio. Por isso, se procuras o princípio verdadeiro e simples, deves encontrar o que não teve princípio. Aquele de quem começou o universo certamente não começou. Pois, se começou, necessariamente começou de outro: nada, com efeito, começou de si mesmo. A menos que alguém julgue que aquilo que não existia pôde dar a si mesmo começar a existir, ou que existiu antes de existir. Como a razão não admite nenhuma das duas coisas, consta que nada foi princípio de si mesmo. O que teve outro princípio não foi o primeiro.4 O verdadeiro princípio, portanto, de modo algum começou; tudo, porém, começou dele.
14. Que é Deus? Aquele a quem os séculos nem se acrescentaram nem se subtraíram, sem contudo serem-lhe coeternos. Que é Deus? Aquele de quem são todas as coisas, por quem são todas as coisas, em quem estão todas as coisas.5 De quem são todas as coisas, por criação, não por geração. Por quem são todas as coisas, para que não julgues haver um autor e outro artífice. Em quem são todas as coisas, não como em lugar, mas como em poder. De quem são todas as coisas, como de um só princípio, autor de tudo. Por quem são todas as coisas, para que não se introduza outro princípio artífice. Em quem são todas as coisas, para que não se introduza um terceiro, o lugar. De quem são todas as coisas, não da matéria que ele seria, pois Deus não é matéria: é causa eficiente, não material. Em vão os filósofos procuram matéria: Deus não necessitou dela. Não procurou oficina nem artífice. Ele, por si e em si, fez todas as coisas. De quê? Do nada; pois, se as fez de algo, não fez esse algo e, portanto, não fez tudo. Longe de nós pensar que de sua substância incorrupta e incorruptível tenha feito tantas coisas, embora boas, contudo corruptíveis. Perguntas: se todas as coisas estão nele, onde está ele? Nada encontro menos. Que lugar o conteria? Perguntas onde ele não está? Nem isso direi. Que lugar há sem Deus? Deus é incompreensível; mas não apreendeste pouco se descobriste que não está em lugar algum, porque não é encerrado em lugar, e não deixa de estar em lugar algum, porque não é excluído por lugar. Em seu modo sublime e incompreensível, assim como tudo está nele, ele está em tudo. Enfim, como diz o evangelista, estava no mundo.6 Antes, porém, onde estava antes de o mundo ser feito, ali está. Não perguntes além disso onde estava: nada havia fora dele. Logo, estava em si mesmo.