De Consideratione

Bernard of Clairvaux

De Consideratione

Bernard of Clairvaux (1090–1153)

First published 1839

De Consideratione ad Eugenium (On Consideration, to Eugene) is Bernard of Clairvaux's last major treatise, composed between 1149 and 1152 and addressed to Pope Eugene III, a former monk of Clairvaux whom Bernard had personally formed before his elevation to the papacy. Written in five books, the work is at once a spiritual manual and a mirror for princes: Bernard urges the newly burdened pope not to let the ceaseless business of Rome — litigation, petitions, the "malicious occupations" of the Curia — extinguish the interior life of consideratio, the reflective self-examination that alone keeps action rightly ordered. The treatise moves outward in careful stages, following the fourfold scheme Bernard sets as its architecture: the pope's consideration of himself, of what lies beneath him (the clergy and people of Rome), of what surrounds him (the cardinals and household), and finally of what lies above him, culminating in Book V's ascent toward the contemplation of God, angelic hierarchy, and the divine nature itself. Alongside its mystical and pastoral concerns, the work is notable for its unsparing critique of curial corruption, its meditation on the proper limits of papal power (including the celebrated distinction between the "two swords"), and its warning — startling in an address to a reigning pope — that Eugene's worldly pomp descends "not from Peter, but from Constantine." Blending rhetorical intensity, biblical exegesis, and Cistercian spirituality, De Consideratione stands as one of the most influential texts of twelfth-century ecclesiology and remains a foundational witness to the monastic critique of ecclesiastical power.


Prólogo

Liber Primus

Caput I: Compadece-se do pontífice, oprimido por tão diversas ocupações

Caput II: A força do costume para induzir maus hábitos e a dureza do coração

Caput III: É indigno aos príncipes da Igreja ocupar-se continuamente em ouvir e decidir as causas dos litigantes

Caput IV: Qual servidão é digna e qual é indigna do servo dos servos de Deus

Caput V: Não se deve cuidar dos outros com descuido e negligência de si mesmo

Caput VI: O poder judiciário compete não tanto aos bispos quanto aos príncipes

Caput VII: Deve-se reservar, antes de tudo, tempo para a piedade e a consideração das coisas eternas

Caput VIII: Da piedade e da contemplação nasce a belíssima harmonia e conexão das quatro virtudes principais

Caput IX: Os exemplos recentes dos pontífices devem ser corrigidos aos poucos; os antigos, imitados

Caput X: Censura severamente os abusos e as fraudes dos advogados, juízes e procuradores

Caput XI: Contra os advogados e procuradores que lucram com a iniquidade, deve-se proceder severamente

Liber Secundus

Caput I: Apresenta uma apologia pelo desfecho infeliz da expedição empreendida à Terra Santa

Caput II: Distinção entre consideração e contemplação

Caput III: Assinala os quatro pontos da consideração

Caput IV: Compreende o conhecimento de si mesmo numa tríplice consideração; desenvolve aqui seu primeiro membro

Caput V: Propõe o segundo membro da consideração de si: quem seja e de onde venha

Caput VI: Qual deve ser o empenho dos príncipes da Igreja

Caput VII: Retomando a pergunta anterior, examina com mais diligência quem ele seja

Caput VIII: Discorre sobre a excelência da dignidade e do poder pontifícios

Caput IX: Recomenda a consideração da própria natureza

Caput X: Expõe o terceiro membro da consideração de si: como ele seja

Caput XI: Recomenda seriamente ao pontífice um exame sério de si

Caput XII: Nem se deve relaxar demais o ânimo na prosperidade, nem desfalecer na adversidade

Caput XIII: Desaconselha ao pontífice o ócio ocioso, as frivolidades e as palavras vãs

Caput XIV: Deve-se evitar sobretudo a acepção de pessoas nos julgamentos

Liber Tertius

Caput I: Compete ao pontífice não tanto sujeitar todos ao seu domínio, mas conduzir todos, quanto possível, ao seio da Igreja

Caput II: Que medida deve ser observada nas apelações à Sé Apostólica

Caput III: Os prelados da Igreja foram constituídos não tanto para presidir e apascentar a si mesmos, quanto para beneficiar os outros

Caput IV: Não se devem confundir e perturbar temerariamente os graus das ordens e dignidades existentes na Igreja. Daí censura o abuso de buscar privilégios e isenções

Caput V: Incumbe ao sumo Pontífice cuidar para que os decretos apostólicos e as instituições dos maiores sejam observados por todo o mundo

Liber Quartus

Caput I: Trata das coisas que estão ao seu redor

Caput II: Trata dos costumes do clero e do povo romano e do cuidado e vigilância dos antigos pastores

Caput III: Da pompa das vestes, que deve ser eliminada, e do zelo necessário ao Pontífice

Caput IV: Que colaboradores e auxiliares deve o Pontífice empregar; onde se trata das virtudes dos prelados

Caput V: Recomenda-se por exemplos a abstinência de presentes e censura-se a arrogância dos ministros do Papa

Caput VI: Não convém ao Pontífice, ocupado em coisas mais graves, o cuidado dos bens domésticos; por isso deve ser confiado antes a outro ecônomo

Caput VII: Epílogo ou suma do que se requer no Pontífice

Liber Quintus

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Caput I: Institui a consideração das coisas que estão acima de nós, isto é, de Deus e das coisas divinas, às quais agora somos elevados pelas criaturas

1. Os livros anteriores, embora intitulados Da consideração, contêm muita ação, pois ensinam ou aconselham não somente coisas a considerar, mas também a fazer. O que agora temos em mãos, porém, versará somente sobre a consideração. As coisas que estão acima — pois é disso que agora se trata — não requerem ação, mas contemplação. Não há o que fazer naquelas coisas que são sempre de um só modo e para sempre; algumas, além disso, desde a eternidade. Quero que notes diligentemente, sagacíssimo Eugênio, que tua consideração peregrina todas as vezes que se desvia delas para estas coisas inferiores e visíveis, quer sejam observadas para conhecimento, desejadas para uso, quer dispostas ou realizadas por dever. Se, contudo, ocupa-se delas de modo a procurar por meio delas aquelas outras, não está longe no exílio. Considerar assim é retornar à pátria. Este é o uso mais sublime e digno das coisas presentes, quando, segundo a sabedoria de Paulo, as coisas invisíveis de Deus são contempladas, compreendidas por meio das coisas criadas. Desta escada necessitam os exilados, não os cidadãos. Viu-o o próprio autor desta sentença, que, ao dizer que o invisível é contemplado pelo visível, acrescentou expressamente: desde a criação do mundo. Com efeito, que necessidade de escada tem quem já possui o trono? A criatura do céu está lá e dispõe de meio melhor para contemplar estas coisas. Vê o Verbo e, no Verbo, as coisas feitas pelo Verbo. Não necessita mendigar das coisas feitas o conhecimento do Criador. Nem desce a elas para conhecê-las, pois ali as vê onde são muito melhores do que em si mesmas. Por isso, não requer como intermediário o sentido do corpo: ela mesma é seu sentido, sentindo-se a si mesma. Excelente modo de ver é não necessitares de ninguém para tudo quanto quiseres conhecer, bastando-te a ti mesmo. Ser ajudado por outro é tornar-se dependente, menos perfeito e menos livre.

2. E que dizer de necessitares das coisas inferiores? Não é isso invertido e indigno? É verdadeira injúria às coisas superiores desejar o serviço das inferiores; dessa injúria nenhum homem será perfeitamente libertado senão quando chegar à liberdade dos filhos de Deus. Todos eles serão ensinados por Deus e, sem intervir criatura alguma, serão bem-aventurados somente por Deus. Isto será retornar à pátria: sair da pátria dos corpos para a região dos espíritos. Ela é nosso Deus, espírito máximo e máxima morada dos espíritos bem-aventurados; e, para que o sentido da carne ou a imaginação nada usurpem aqui, é a verdade, a sabedoria, a virtude, a eternidade, o sumo bem. Dele estamos ausentes por enquanto; e onde estamos é um vale de lágrimas, no qual os sentidos reinam, e a consideração vive no exílio; no qual o sentido corporal se exerce livremente e com poder, mas o olho espiritual, enredado, obscurece-se. Que admira, pois, que o estrangeiro necessite do auxílio do natural da terra? Feliz, segundo o tempo, é o viajante que pôde converter em serviço o benefício dos cidadãos, sem o qual não pode passar: usando, não fruindo; compelindo, não pedindo; como credor, não como suplicante.

Caput II: Assinala os vários graus da consideração

3. Grande é aquele que procura despender o uso dos sentidos, como se fossem recursos dos cidadãos, administrando-os para a própria salvação e a de muitos. Não é menor aquele que, filosofando, faz desse uso um degrau para as coisas invisíveis; salvo que este é mais doce e aquele mais útil, este mais feliz e aquele mais vigoroso. Mas o maior de todos é aquele que, desprezando o próprio uso das coisas e dos sentidos, quanto o permite a fragilidade humana, costuma às vezes, não por degraus de ascensão, mas por êxtases inesperados, voar pela contemplação àquelas coisas sublimes. Julgo que pertencem a este último gênero os êxtases de Paulo. Êxtase, não ascensão: ele próprio declara ter sido antes arrebatado do que ter subido. Daí dizia: Se saímos de nós pela mente, é para Deus. Essas três coisas acontecem quando a consideração, embora no lugar de sua peregrinação, elevada pelo estudo da virtude e pelo auxílio da graça, ou reprime a sensualidade para que não se insolente, ou a força para que não se disperse, ou foge dela para que não a inquiete. Na primeira é mais poderosa; na segunda, mais livre; na terceira, mais pura. Com efeito, aquele voo se faz igualmente pelas asas da pureza e da vivacidade.

4. Queres que essas espécies de consideração sejam distinguidas por nomes próprios? Chamemos, se te agrada, a primeira dispensativa; a segunda, estimativa; a terceira, especulativa. As definições esclarecerão as razões desses nomes. A consideração dispensativa usa ordenada e socialmente os sentidos e as coisas sensíveis para merecer Deus. A consideração estimativa investiga e pondera prudentemente cada coisa para encontrar vestígios de Deus. A consideração especulativa recolhe-se em si mesma e, quanto é divinamente ajudada, subtrai-se às coisas humanas para contemplar Deus. Creio que notas atentamente ser esta o fruto das outras; e que as demais, se não forem referidas a ela, podem parecer o que se diz que são, mas não o são. A primeira, sem visar a esta, semeia muito e nada colhe; a seguinte, se não se dirige a esta, caminha, mas não chega. Assim, o que a primeira prepara, a segunda aspira, a terceira saboreia. A esse sabor conduzem também as outras, embora mais lentamente; salvo que pela primeira se chega com mais trabalho e pela segunda, com mais quietude.

Caput III: As coisas que estão acima de nós, isto é, Deus e os Anjos, são investigadas pela opinião, pela fé e pelo entendimento

5. “Disseste”, replicas, “por onde se sobe; resta dizer para onde se deve subir.” Enganas-te, se esperas isso: é inefável. Julgas que eu possa dizer o que o olho não viu, o ouvido não ouviu e não subiu ao coração do homem? A nós, diz, Deus o revelou por seu Espírito. Portanto, as coisas que estão acima não são ensinadas pela palavra, mas reveladas pelo espírito. Aquilo que o discurso não explica, procure-o a consideração, peça-o a oração, mereça-o a vida, alcance-o a pureza. Advertido acerca das coisas superiores, não julgues que te mando olhar o sol, a lua, as estrelas, nem o próprio firmamento, nem as águas que estão acima dos céus. Todas essas coisas, embora superiores pelo lugar, são inferiores pelo valor e pela dignidade da natureza: são corpos. Tua porção é o espírito, acima do qual em vão procuras algo que não seja espírito. Deus é espírito; também os santos Anjos são espíritos, e estão acima de ti. Deus, porém, é superior por natureza; os Anjos, pela graça. O melhor tanto em ti como no Anjo é a razão; Deus, porém, não tem em si alguma parte melhor: ele inteiro é o único ótimo. Ele e os espíritos bem-aventurados que estão com ele devem ser investigados por nossa consideração de três modos, como por três vias: opinião, fé e entendimento. O entendimento apoia-se na razão; a fé, na autoridade; a opinião sustenta-se apenas pela verossimilhança. Os dois primeiros têm verdade certa; mas a fé a tem fechada e envolta; o entendimento, nua e manifesta. A opinião, nada tendo de certo, antes busca o verdadeiro pelo verossímil do que o apreende.

6. Deve-se evitar inteiramente a confusão entre eles, para que a fé não fixe o incerto da opinião, nem a opinião torne a pôr em questão o que na fé é firme e estabelecido. Saiba-se também que a opinião, se assevera, é temerária; a fé, se hesita, é fraca; e o entendimento, se tenta arrombar o selo da fé, é tido por violador e perscrutador da majestade. Muitos tomaram a própria opinião por entendimento e erraram. A opinião pode ser tomada por entendimento; o entendimento não pode ser tomado por opinião. Por que isso acontece? Porque aquela pode enganar-se, este não; ou, se pôde enganar-se, não foi entendimento, mas opinião. O verdadeiro entendimento tem não só verdade certa, mas conhecimento da verdade. Podemos defini-los assim. A fé é certa degustação voluntária da verdade ainda não manifestada. O entendimento é conhecimento certo e manifesto de qualquer realidade invisível. A opinião consiste em ter por verdadeiro algo que não sabes ser falso. Portanto, como disse, a fé não tem ambiguidade; ou, se a tem, não é fé, mas opinião. Em que difere, então, do entendimento? Embora não tenha incerteza, assim como o entendimento, ainda tem um invólucro, que o entendimento não tem. Enfim, aquilo que compreendeste já não deixa o que investigar; ou, se deixa, não o compreendeste. Nada é mais conhecido do que aquilo que já conhecemos pela fé. Nada faltará à beatitude quando aquilo que agora nos é certo pela fé também estiver nu diante de nós.

Caput IV: Como devem ser considerados os Anjos

7. Esclarecidas essas coisas, dirija-se agora a consideração à Jerusalém do alto, nossa mãe, e, por todas as três vias mencionadas, investiguemos cauta e vigilantemente as coisas investigáveis, quanto é lícito ou, antes, quanto nos for concedido. Primeiro, sabemos pela leitura e sustentamos pela fé que ali os cidadãos são espíritos poderosos, gloriosos, bem-aventurados, distintos em pessoas, dispostos em dignidades, firmes desde o princípio em sua ordem, perfeitos em seu gênero, de corpo etéreo, perpétuos pela imortalidade, impassíveis não por criação, mas por efeito, isto é, pela graça, não pela natureza; puros na mente, benignos no afeto, piedosos na religião, íntegros na castidade, indivisos na unanimidade, seguros na paz, criados por Deus e dedicados aos louvores divinos e ao serviço. Embora, quanto aos corpos deles, não apenas de onde sejam, mas se de algum modo existem, a sentença de alguns permaneça incerta. Por isso, se alguém julgar que essa questão deve ser posta antes entre as opináveis, não contesto. Que sejam dotados de entendimento, porém, apreendemos não pela fé nem pela opinião, mas pelo entendimento, porque não podem carecer dele e ao mesmo tempo participar de Deus. Conhecemos igualmente pelo ouvido alguns nomes pelos quais podemos conjecturar e discernir de algum modo os ofícios, méritos, graus e ordens dessas bem-aventuranças, mesmo os que o ouvido dos mortais não percebeu claramente. Mas aquilo que não vem do ouvido já não vem da fé, pois a fé vem do ouvido. Diremos, portanto, essas coisas opinando. Para que se tornaram conhecidos os nomes celestes, se nem sequer é lícito, salva a fé, opinar algo sobre as realidades de que são nomes? Anjos, Arcanjos, Virtudes, Potestades, Principados, Dominações, Tronos, Querubins e Serafins: estes são os nomes. Que significam? Não há diferença entre os espíritos chamados simplesmente Anjos e os denominados Arcanjos?

8. Que significa, pois, esta distinção gradual? Suponhamos — salvo se consideraste algo mais conveniente — que se chamam Anjos os que, segundo se crê, são dados um a cada homem, enviados para servir, segundo a doutrina de Paulo, em favor daqueles que hão de receber a herança da salvação; deles diz o Salvador: Seus Anjos veem sempre a face do Pai. Suponhamos que a estes presidem os Arcanjos, conhecedores dos mistérios divinos, enviados somente por causas principais e máximas. Entre eles, lemos que o grande arcanjo Gabriel foi enviado a Maria, por uma causa maior do que a qual não poderia haver. Suponhamos que acima deles estão as Virtudes, por cujo aceno ou obra aparecem sinais e prodígios feitos nos elementos ou a partir deles, para advertência dos mortais. Daí talvez, quando lês nos Evangelhos: Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas, pouco depois tens: Pois as virtudes dos céus serão abaladas; isto é, os espíritos por quem se fazem os sinais. Suponhamos que as Potestades são superiores a eles, e por sua força é reprimido o poder das trevas e coibida a malignidade deste ar, para que não prejudique quanto quer e só possa agir mal para o bem. Suponhamos que lhes são antepostos os Principados, por cuja moderação e sabedoria todo principado na terra é constituído, regido, limitado, transferido, mutilado e mudado. Suponhamos que as Dominações superam de tal modo todas as ordens mencionadas que, em comparação com elas, todas as demais parecem espíritos administradores e a elas, como a senhores, se referem os governos dos Principados, as defesas das Potestades, as operações das Virtudes, as revelações dos Arcanjos e o cuidado e a providência dos Anjos. Suponhamos que os Tronos se elevaram ainda acima delas a grande distância: chamam-se Tronos porque se assentam e assentam porque Deus se assenta neles. Ele não poderia assentar-se nos que não se assentassem. Perguntas o que entendo por esse assento? Suprema tranquilidade, placidíssima serenidade, paz que excede todo entendimento. Tal é o Senhor dos exércitos que se assenta nos Tronos, julgando tudo com tranquilidade, placidíssimo, sereníssimo, pacatíssimo. E constituiu para si Tronos assim, muito semelhantes a si. Suponhamos que os Querubins bebem da própria fonte da sabedoria, da boca do Altíssimo, e derramam torrentes de ciência sobre todos os seus concidadãos. Vê se não é esta a torrente de que falava o profeta, cujo ímpeto alegra a cidade de Deus. Suponhamos que os Serafins, espíritos inteiramente abrasados pelo fogo divino, inflamam a todos, para que cada cidadão seja uma lâmpada ardente e luminosa: ardente pela caridade, luminosa pelo conhecimento.

9. Ó Eugênio, como é bom estarmos aqui! Quanto melhor será se algum dia seguirmos por inteiro para onde em parte nos adiantamos! Adiantamo-nos pelo espírito, e nem sequer por ele inteiro, mas por parcela demasiado pequena. Os afetos jazem agravados pelo peso corporal e os desejos aderem ao lodo; só a consideração, ainda seca e tênue, voa adiante. E, contudo, por esse pouco que já se concede, apraz exclamar: Senhor, amei a beleza de tua casa e o lugar da habitação de tua glória. Que aconteceria se a alma inteira se recolhesse e, reconduzidos os afetos de todos os lugares onde são mantidos cativos — temendo o que não convém, amando o que não é devido, sofrendo em vão e alegrando-se ainda mais vãmente —, com eles levantasse voo em plena liberdade, batesse à porta pelo ímpeto do espírito e deslizasse na abundância da graça? Ao começar a percorrer as moradas luminosas, perscrutar mais curiosamente o seio de Abraão e revisitar sob o altar, seja ele qual for, as almas dos mártires, que na primeira veste aguardam pacientissimamente a segunda, acaso não insistiria muito mais, dizendo com o profeta: Uma coisa pedi ao Senhor, esta buscarei: habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, ver a vontade do Senhor e visitar seu templo? Por que não se veria ali o coração de Deus? Por que não se provaria ali qual é a vontade de Deus, boa, agradável e perfeita? Boa em si; agradável em seus efeitos; bem-agradável aos que a fruem; perfeita para os perfeitos, que nada mais procuram. Abrem-se as entranhas da misericórdia, os pensamentos de paz, as riquezas da salvação, os mistérios da boa vontade, os segredos da benignidade, que, fechados aos mortais, são suspeitos até aos próprios eleitos. Isso é salutar, para que não deixem de temer enquanto ainda não são encontrados capazes de amar dignamente.

10. Nos que se chamam Serafins pode-se ver como ama aquele que não recebe de onde amar, mas é, e que nada odeia do que fez; como favorece, promove e abraça aqueles que fez para salvar; como aquele fogo consumidor consome os delitos da juventude eleita e as palhas de sua ignorância, tornando-a puríssima e digníssima de seu amor. Nos Querubins, chamados plenitude da ciência, pode-se ver que Deus é Senhor das ciências, o único que desconhece apenas a ignorância, que é todo luz e nele não há treva alguma; todo olho, que jamais se engana porque jamais se fecha; que não procura fora de si uma luz a que se aproxime para ver: ele é quem vê e aquilo por que vê. Nos Tronos pode-se ver quão insuspeito juiz de toda inocência neles se assenta: não quer enganar nem pode ser enganado, pois ama e vê assim. O assento não é sem significado: é insígnia da tranquilidade. Desejo que meu juízo proceda de tal rosto, no qual esteja o amor e do qual estejam ausentes o erro e a perturbação. Nas Dominações pode-se ver quão grande é a majestade do domínio daquele por cujo aceno subsiste o império e cujo império tem por limites o universo e a eternidade. Nos Principados pode-se ver o princípio de que tudo procede e como, tal qual a porta pelo gonzo, o universo é regido por ele. Nas Potestades pode-se ver com quanto poder o mesmo príncipe protege aqueles que rege, afastando e repelindo os poderes contrários. Nas Virtudes pode-se ver uma única força igualmente presente em toda parte, pela qual tudo existe: vivificante, eficaz, invisível e imóvel, mas movendo utilmente tudo e sustentando-o com firmeza. Quando ela irrompe entre os mortais em efeitos menos habituais, chamam-nos milagres ou prodígios. Por fim, nos Anjos e Arcanjos pode-se ver e admirar a verdade e a experiência daquela palavra: Ele tem cuidado de nós; pois não cessa de nos alegrar com tantas e tais visitas, instruir com revelações, advertir com inspirações e consolar com solicitude.

Caput V: As graças e os dons dos Anjos derivam de Deus para eles

11. Tudo isso conferiu àqueles espíritos o mesmo que os criou, o único e sumo Espírito, distribuindo a cada um como quis. Ele opera neles essas coisas e deu-lhes operá-las, mas de outro modo. Os Serafins ardem, mas pelo fogo de Deus, ou antes pelo fogo que é Deus. O principal neles é amar, mas não quanto Deus nem como Deus. Os Querubins resplandecem e sobressaem na ciência, mas por participação da verdade; não como a Verdade nem tanto quanto ela. Os Tronos se assentam, mas por benefício de quem neles se assenta. Também julgam com tranquilidade, mas não segundo a medida ou o modo da paz que pacifica, a paz que excede todo sentido. As Dominações dominam, mas dominam sob o Senhor e igualmente servem. Que é isso em relação ao domínio supremo, sempiterno e único? Os Principados presidem e regem; mas também são regidos, de modo que já não saberiam reger se deixassem de ser regidos. Nas Potestades sobressai a fortaleza; mas devem a outro o serem fortes, enquanto ele é forte de outro modo e em grau maior: não tanto forte quanto a própria fortaleza. As Virtudes, segundo seu ministério e poder, empenham-se em despertar os corações entorpecidos dos homens pela manifestação dos sinais; mas a virtude que permanece nelas é quem faz as obras. Também elas fazem, mas, em comparação com ele, não fazem. A diferença é tanta que o profeta diz quase singularmente a ele: Tu és o Deus que faz maravilhas; e também: Aquele que sozinho faz grandes maravilhas. Os Anjos e Arcanjos assistem; mas ele nos é mais próximo, pois não apenas assiste, mas está em nós.

12. Se disseres que também o anjo pode estar em nós, não nego. Recordo o que está escrito: E o anjo que falava em mim. Mas também nisso há diferença. O anjo está em nós sugerindo o bem, não o infundindo; exortando ao bem, não criando o bem. Deus está em nós de modo a afetar e infundir, ou antes, ser infundido e participado; tanto que alguém não temeu dizer que ele se faz, desse modo, um só espírito com o nosso, embora não uma só pessoa nem uma só substância. Tens, com efeito: Quem adere a Deus é um só espírito. O anjo está, pois, com a alma; Deus, na alma. Aquele, como companheiro da alma; Deus, como vida. Assim como a alma vê nos olhos, ouve nos ouvidos, cheira nas narinas, saboreia na garganta e toca em todo o restante do corpo, assim Deus opera coisas diversas em diversos espíritos: em uns, por exemplo, mostrando-se amante; em outros, cognoscente; em outros, realizando outras coisas, conforme a cada um é dada a manifestação do espírito para utilidade. Quem é este, tão comum nas palavras e tão distante nas realidades? Como aquele de quem falamos com nossas palavras, escondido em sua majestade, escapa inteiramente a nossos olhares e afetos? Ouve o que ele próprio fala aos homens: Assim como os céus se elevam acima da terra, assim meus caminhos se elevaram acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos. Diz-se que amamos, e Deus ama; diz-se que conhecemos, e Deus conhece; e assim em muitas coisas. Mas Deus ama como caridade, conhece como verdade, assenta-se como equidade, domina como majestade, rege como princípio, protege como salvação, opera como virtude, revela como luz, assiste como piedade. Tudo isso fazem também os Anjos e fazemos nós, mas de modo muito inferior: não pelo bem que somos, e sim pelo que participamos.

Caput VI: A noção de princípio e de essência convém propriamente somente a Deus

13. Ultrapassa agora esses espíritos, para que talvez possas dizer com a esposa: Mal os ultrapassei, encontrei aquele que minha alma ama. Quem é ele? Nada ocorre mais acertadamente do que: Aquele que é. Assim quis ele responder de si; assim ensinou, quando ordenou a Moisés dizer ao povo: Aquele que é enviou-me a vós. Com razão: nada convém mais à eternidade, que é Deus. Se disseres de Deus que é bom, grande, bem-aventurado, sábio ou algo semelhante, tudo se encerra nesta palavra: É. Pois ser, para ele, é ser tudo isso. Se acrescentares cem coisas semelhantes, não te afastaste do ser. Se as disseres, nada acrescentaste; se não as disseres, nada diminuíste. Se viste esse ser tão singular e supremo, em comparação com ele não julgas que tudo quanto não é isso antes não seja do que seja? Que é ainda Deus? Aquele sem o qual nada é. Tanto nada pode ser sem ele quanto ele não pode ser sem si mesmo. Ele é para si, ele é para todos. Por isso, de certo modo, só ele é aquele que é seu próprio ser e o ser de todas as coisas. Que é Deus? Princípio; foi essa a resposta que deu de si. Muitas coisas são chamadas princípios, mas em relação às posteriores. Se olhares para algo precedente, antes a este darás o nome de princípio. Por isso, se procuras o princípio verdadeiro e simples, deves encontrar o que não teve princípio. Aquele de quem começou o universo certamente não começou. Pois, se começou, necessariamente começou de outro: nada, com efeito, começou de si mesmo. A menos que alguém julgue que aquilo que não existia pôde dar a si mesmo começar a existir, ou que existiu antes de existir. Como a razão não admite nenhuma das duas coisas, consta que nada foi princípio de si mesmo. O que teve outro princípio não foi o primeiro. O verdadeiro princípio, portanto, de modo algum começou; tudo, porém, começou dele.

14. Que é Deus? Aquele a quem os séculos nem se acrescentaram nem se subtraíram, sem contudo serem-lhe coeternos. Que é Deus? Aquele de quem são todas as coisas, por quem são todas as coisas, em quem estão todas as coisas. De quem são todas as coisas, por criação, não por geração. Por quem são todas as coisas, para que não julgues haver um autor e outro artífice. Em quem são todas as coisas, não como em lugar, mas como em poder. De quem são todas as coisas, como de um só princípio, autor de tudo. Por quem são todas as coisas, para que não se introduza outro princípio artífice. Em quem são todas as coisas, para que não se introduza um terceiro, o lugar. De quem são todas as coisas, não da matéria que ele seria, pois Deus não é matéria: é causa eficiente, não material. Em vão os filósofos procuram matéria: Deus não necessitou dela. Não procurou oficina nem artífice. Ele, por si e em si, fez todas as coisas. De quê? Do nada; pois, se as fez de algo, não fez esse algo e, portanto, não fez tudo. Longe de nós pensar que de sua substância incorrupta e incorruptível tenha feito tantas coisas, embora boas, contudo corruptíveis. Perguntas: se todas as coisas estão nele, onde está ele? Nada encontro menos. Que lugar o conteria? Perguntas onde ele não está? Nem isso direi. Que lugar há sem Deus? Deus é incompreensível; mas não apreendeste pouco se descobriste que não está em lugar algum, porque não é encerrado em lugar, e não deixa de estar em lugar algum, porque não é excluído por lugar. Em seu modo sublime e incompreensível, assim como tudo está nele, ele está em tudo. Enfim, como diz o evangelista, estava no mundo. Antes, porém, onde estava antes de o mundo ser feito, ali está. Não perguntes além disso onde estava: nada havia fora dele. Logo, estava em si mesmo.

Caput VII: Deus é simples e trino

15. Que é Deus? Aquele em relação ao qual nada melhor pode ser pensado. Se o admites, não deves assentir que exista algo pelo qual Deus seja e que não seja Deus. Isso, sem dúvida, seria melhor. Como não seria melhor que Deus aquilo que dá a Deus o ser, se não fosse Deus? Antes confessamos que aquela divindade pela qual dizem que Deus é não é outra coisa senão Deus. Portanto, em Deus não há senão Deus. “Quê?”, dizem, “negas que Deus tenha divindade?” Não; mas ele é aquilo que tem. Negas que Deus seja pela divindade? Não; mas não por outra senão aquela que ele é. Se encontraste outra, ajude-me a Trindade Deus: levanto-me com toda obstinação contra ela. A quaternidade determina o mundo; não significa a divindade. Deus é Trindade, Deus é cada uma das três pessoas. Se agrada acrescentar uma quarta divindade, persuadi-me ao menos de que aquela que não é Deus não deve ser adorada. Creio que tu também. Com efeito, adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás. Gloriosa divindade seria aquela que não ousasse arrogar para si honra divina! Melhor é rejeitar inteiramente essa quarta do que recebê-la sem honra. Muitas coisas se dizem existir em Deus, e catolicamente, mas as muitas são uma só. Se as julgarmos diversas, não teremos quaternidade, mas centena. Dizemos, por exemplo, grande, bom, justo e inúmeras coisas semelhantes; mas, se não considerares todas uma só em Deus e com Deus, terás um Deus múltiplo.

16. A mim não falta algo melhor para pensar que esse teu Deus. Perguntas o quê? A pura simplicidade. Por juízo verdadeiro, a natureza simples é anteposta à múltipla. Sei o que costumam responder: “Não afirmamos que muitas, mas uma só divindade — que é todas essas coisas — confere a Deus o ser.” Afirmais, portanto, ainda que não um Deus múltiplo, um Deus duplo; não chegastes ao puramente simples nem àquilo em relação ao qual nada melhor pode ser pensado. Não é simples aquilo que está sujeito sequer a uma forma, como não é virgem aquela que conheceu sequer um homem. Falo com segurança: nem mesmo aquele que é duplo será meu. Tenho um melhor. Ainda que o anteponha ao numeroso e múltiplo, desprezo-o diante do simples. Meu Deus é catolicamente ele mesmo. Não tem isto e aquilo, como não é este e aquela. É aquele que é, não aquela que é. Puro, simples, íntegro, perfeito, constante consigo mesmo; nada dos tempos, lugares ou coisas atraindo para si, nada de si depositando neles; não tendo o que dividir em número nem coisas que reunir numa unidade. É um, não unificado. Não consta de partes como o corpo; não se divide em afetos como a alma; não está sujeito a formas como tudo o que foi feito; nem sequer a uma forma, como estes julgaram. Grande louvor a Deus seria libertá-lo da informidade contentando-o com uma única forma! Isso é dizer que as outras coisas devem a várias o que são, e Deus deve o que é a uma só. Aquele por cujo benefício as coisas são o que são inclinaria a outro benfeitor para receber o próprio ser? Esse louvor, como se diz vulgarmente, equivale a blasfêmia. Não é melhor não necessitar de nenhum do que de um só? Tem reverência por Deus e atribui-lhe o que é melhor. Se teu coração pôde subir até aqui, como colocarás teu Deus abaixo? Ele é para si forma e essência. Por ora o diviso neste grau; se aparecesse outro melhor, dar-lhe-ia antes esse. Deve-se temer que o pensamento voe além dele? Por mais que progrida em altura, ele está além. Buscar abaixo do que o homem pode pensar o Altíssimo é ridículo; estabelecê-lo ali, ímpio. Deve-se buscá-lo além, não aquém.

17. Sobe ainda, se podes, a um coração mais alto, e Deus será exaltado. Deus não é formado: é forma. Deus não é afetado: é afeição. Deus não é composto: é o puramente simples. Para saberes claramente o que chamo simples: o mesmo que um. Deus é tão simples quanto é um. E é um como nada mais. É, se assim se pode dizer, uníssimo. O sol é um porque não há outro; a lua é uma porque igualmente não há outra. Deus também o é, mas mais. Em quê? É um também para si mesmo. Queres que isso te seja explicado? É sempre o mesmo e de um só modo. Não assim o sol, não assim a lua: ambos proclamam não serem um para si mesmos, aquele por seus movimentos, esta também por seus eclipses. Deus, porém, não é apenas um para si: é um em si. Nada tem em si senão a si mesmo. Não sofre alteração no tempo nem alteridade na substância. Daí diz Boécio: “Isto é verdadeiramente um, no qual não há número nem há nele algo além do que é; pois não pode tornar-se sujeito, porque é forma.” Compara a este um tudo quanto pode ser chamado um, e não será um. Contudo, Deus é Trindade. Então destruímos o que foi dito da unidade porque introduzimos a trindade? Não; estabelecemos a unidade. Dizemos Pai, Filho e Espírito Santo; contudo, não três Deuses, mas um. Que significa esse número, por assim dizer, sem número? Se são três, como não há número? Se são um, onde está o número? “Tenho”, dizes, “o que numerar e o que não numerar. A substância é uma; as pessoas são três.” Que há de admirável ou obscuro nisso? Nada, se as pessoas forem pensadas separadamente da substância. Mas, como aquelas três pessoas são essa substância, e essa única substância é aquelas três pessoas, quem negará o número? Verdadeiramente são três. Quem, porém, os numerará? Verdadeiramente são um. Se julgas fácil explicá-lo dizendo “três”, dize o que numeraste. Naturezas? Há uma. Essências? Uma. Substâncias? Uma. Divindades? Uma. “Não estas, mas as pessoas numero”, dizes. Acaso não são elas aquela única natureza, essência, substância e divindade? És católico: de modo algum o negarás.

Caput VIII: A pluralidade das pessoas em Deus surge das propriedades; a essência, contudo, permanece una e simples

18. A fé católica confessa que as propriedades das pessoas não são outra coisa que as pessoas; e as próprias pessoas não são outra coisa que um só Deus, uma só substância divina, uma só natureza divina, uma só divina e suprema majestade. Numera, pois, se podes, as pessoas sem a substância que elas próprias são, ou as propriedades sem as pessoas que elas próprias são. Se alguém tentar dividir as pessoas da substância ou as propriedades das pessoas, não sei como poderá professar-se adorador da Trindade depois de exceder em tamanha multiplicidade de coisas. Digamos, portanto, três, mas sem prejuízo da Unidade; digamos um, mas sem confusão da Trindade. Os nomes não são vazios nem as vozes destituídas de significado. Alguém pergunta como isso pode ser. Baste-lhe sustentar que assim é. Isso não é perspicaz para a razão nem ambíguo para a opinião, mas persuadido à fé. Este mistério é grande, digno de veneração, não de escrutínio. Como a pluralidade está na unidade — e nessa unidade —, ou a unidade na pluralidade? Perscrutá-lo é temeridade; crê-lo, piedade; conhecê-lo, vida e vida eterna. Por isso, se julgas útil, ó Eugênio, percorra agora a consideração as muitas unidades, para tornar mais evidente a eminência deste singular Um. Há a unidade que se pode chamar coletiva, quando, por exemplo, muitas pedras formam um só monte. Há a unidade constitutiva, quando muitos membros constituem um corpo ou muitas partes, um todo. Há a unidade conjugal, pela qual dois já não são dois, mas uma só carne. Há a nativa, pela qual alma e carne nascem como um só homem. Há a unidade de constância, pela qual o homem virtuoso procura ser sempre estável e igual a si mesmo. Há a de consenso, quando pela caridade muitos homens têm um só coração e uma só alma. Há a votiva, quando a alma, aderindo a Deus com todos os votos, é um só espírito. E há a unidade de dignação, pela qual nosso barro foi assumido pelo Verbo de Deus numa só pessoa.

19. Mas que são todas elas diante do Uno supremo e, por assim dizer, unicamente Uno, onde a consubstancialidade faz a unidade? Se assemelhares a este Um qualquer daquelas, será de algum modo uma; se a comparares, de modo algum. Entre tudo o que retamente se chama um, ocupa o cume a Unidade da Trindade, pela qual três pessoas são uma substância. Em segundo lugar, sobressai aquela pela qual, inversamente, três substâncias são em Cristo uma pessoa. Esta e quaisquer outras que podem dizer-se uma são chamadas uma, segundo verdadeira e sóbria consideração, por imitação da suma unidade, não por comparação. A afirmação dos Três não nos afasta desta profissão da unidade, pois nesta Trindade não admitimos multiplicidade, como tampouco solidão na unidade. Assim, quando digo Um, não me perturba o número da Trindade, que não multiplica, varia ou divide a essência. E, quando digo Três, não me repreende a contemplação da unidade, que nem força à confusão quaisquer daqueles três, nem os reduz à singularidade.

Caput IX: Assim como em Deus a natureza simples está em três pessoas, em Cristo, ao contrário, várias naturezas confluem numa só pessoa

20. Confesso pensar o mesmo daquela unidade à qual, entre as demais, dei a segunda honra depois desta. Digo que em Cristo o Verbo, a alma e a carne são uma só pessoa, sem confusão das essências; e que, sem prejuízo da unidade pessoal, permanecem em sua pluralidade. Não negaria que ela pertença também ao gênero de unidade pelo qual alma e carne são um só homem. Convinha que o mistério instituído para o homem se harmonizasse mais familiarmente e por maior semelhança com a constituição do homem. Convinha ainda que se harmonizasse com a unidade suprema, que está em Deus e é Deus: assim como ali três pessoas são uma essência, aqui, por adequadíssimo contraste, três essências são uma pessoa. Vês como esta unidade é belamente colocada entre as duas, naquele que foi constituído mediador de Deus e do homem, o homem Cristo Jesus? Belíssima conveniência, digo, para que o mistério salutar corresponda por adequada semelhança a ambos: àquele que salva e àquele que é salvo. Assim, esta unidade, posta no meio das duas unidades, é reconhecida inferior a uma e superior à outra, tanto inferior à superior quanto superior à inferior.

21. Enfim, aquela pessoa na qual Deus e homem são um só Cristo apresenta em si tão grande e expressiva força de união que, se predicares os dois um do outro, não errarás, pronunciando verdadeira e catolicamente que Deus é homem e o homem é Deus. Não predicas, porém, de modo semelhante a carne da alma ou a alma da carne sem grande absurdo, embora alma e carne sejam semelhantemente um só homem. Não admira se a alma, por sua tensão vital, ainda que muito forte, não pode ligar e prender a si pelos afetos a carne tão fortemente quanto a divindade ligou a si aquele homem que foi predestinado Filho de Deus em poder. Longa e forte corrente para ligar é a predestinação divina: ela existe desde a eternidade. Que é mais longo que a eternidade? Que é mais poderoso que a divindade? Daí que nem mesmo a morte pôde romper de modo algum essa unidade, embora a carne e a alma se tenham separado. Talvez tenha sentido isso aquele que se declarou indigno de desatar a correia deste calçado.

Caput X: A parábola de Mateus sobre as três medidas de farinha é aplicada à pessoa de Cristo

22. Também aquelas três medidas do Evangelho, misturadas e fermentadas num só pão, se alguém disser que pertencem a estas três coisas, não me parecerá fazê-lo inconvenientemente. Quão bem aquela mulher as fermentou, para que, mesmo feita a separação da carne e da alma, o Verbo não se separasse da carne nem da alma! Mesmo na separação permaneceu a unidade inseparável. A separação parcial não pôde prescrever contra a unidade que permanecia em todas as três. Quer as duas estivessem unidas, quer separadas, a unidade pessoal perseverou igualmente nas três. Um só Cristo e uma só pessoa — o Verbo, a alma e a carne — permaneceram mesmo depois da morte do homem. No ventre da Virgem, segundo entendo, fizeram-se essa mistura e fermentação; e ela mesma foi a mulher que misturou e fermentou. Talvez não sem razão eu chame fermento à fé de Maria. Verdadeiramente bem-aventurada a que creu, porque nela se cumpriram as coisas que lhe foram ditas pelo Senhor. Não se teriam cumprido se, segundo a palavra do Senhor, não estivesse fermentado o todo, e perpetuamente fermentado, conservando-nos, tanto na morte como na vida, um só e íntegro mediador de Deus e dos homens, com sua divindade, o homem Cristo Jesus.

23. Neste admirável mistério devem-se notar, segundo o número das medidas, os graus de uma admirável e convenientíssima distinção: novo, antigo e eterno. Novo é a alma, que se crê criada do nada quando infundida; antigo, a carne, que se reconhece transmitida desde o primeiro dos homens, isto é, desde Adão; eterno, o Verbo, que se afirma com indubitável verdade gerado desde a eternidade pelo Pai e coeterno com ele. Neles há, se observares diligentemente, tríplice gênero da potência divina: do nada foi feito algo; do antigo, algo novo; do condenado e morto, algo eterno e bem-aventurado. Que tem isso com nossa salvação? Muito, de todos os modos. Primeiro, porque, reduzidos a nada pelo pecado, por isso fomos de certo modo criados novamente, para sermos como primícias de sua criatura. Depois, porque, transferidos da antiga servidão para a liberdade dos filhos de Deus, caminhamos na novidade do espírito. Por fim, porque, chamados do poder das trevas ao reino da claridade eterna, ele já nos fez assentar em Cristo. Estejam longe de nós os que tentam alienar de nós a carne de Cristo, afirmando impiamente que foi criada nova na Virgem, e não tomada da Virgem. Belamente o espírito profético se antecipou muito antes a essa sentença — ou antes, blasfêmia — dos ímpios: Sairá, diz, uma vara da raiz de Jessé, e uma flor subirá de sua raiz. Poderia ter dito: “E da vara, uma flor”; mas preferiu: da raiz, para mostrar que a vara e a flor tiveram origem na mesma fonte. A carne, portanto, foi tomada de onde se originou a Virgem; não era nova na Virgem aquela que procedeu da raiz.

Caput XI: Continuação da consideração de Deus

24. Talvez te indignes se ainda continuamos a perguntar: que é Deus? Tanto porque já se perguntou tantas vezes como porque desconfias de que será encontrado. Digo-te, Padre Eugênio: só Deus jamais pode ser buscado em vão, mesmo quando não pode ser encontrado. Ensine-te isso tua experiência; ou, se não, crê em quem tem experiência, não em mim, mas no santo que diz: Bom és, Senhor, para os que esperam em ti, para a alma que te busca. Que é, pois, Deus? Em relação ao universo, fim; em relação aos eleitos, salvação; em relação a si mesmo, ele o sabe. Que é Deus? Vontade onipotente, virtude benevolentíssima, luz eterna, razão imutável, suma beatitude; cria as mentes para que dele participem, vivifica-as para que sintam, afeta-as para que desejem, dilata-as para que o recebam, justifica-as para que mereçam, inflama-as para o zelo, fecunda-as para o fruto, dirige-as para a equidade, forma-as para a benevolência, modera-as para a sabedoria, fortalece-as para a virtude, visita-as para a consolação, ilumina-as para o conhecimento, perpetua-as para a imortalidade, cumula-as para a felicidade, circunda-as para a segurança.

Caput XII: Deus é o piedoso remunerador das boas obras e o justíssimo vingador dos crimes

Caput XIII: Discorre profunda e elegantemente sobre o comprimento, a largura, a profundidade e a sublimidade de Deus

Caput XIV: Mostra o modo pelo qual podemos compreender as coisas ditas, segundo o Apóstolo

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