13. Julgo digno de ser trazido a público um feito de nosso Martinho, de doce memória. Tu o conheces; ignoro, porém, se o recordas. Ele, cardeal presbítero, depois de exercer uma legação na Dácia, retornou tão pobre que, quase sem recursos e sem cavalos, mal chegou a Florença. Ali o bispo do lugar deu-lhe um cavalo, no qual chegou até Pisa, onde então estávamos. No dia seguinte, creio, chegou o bispo — pois tinha uma causa contra um adversário e chegara o dia de tratá-la — e começou a buscar o apoio dos amigos. Solicitando-os um a um, chegou-se a Martinho. Havia maior confiança nele, que não poderia esquecer o benefício recente. Então Martinho disse: “Enganaste-me; eu não sabia que tinhas um negócio pendente. Toma teu cavalo: ei-lo no estábulo.” E naquela mesma hora o devolveu. Que dizes, meu Eugênio? Não parece coisa de outro século um legado ter regressado da terra do ouro sem ouro, atravessado a terra da prata sem conhecer a prata e, além disso, rejeitado imediatamente um presente que podia ser suspeito?
14. Ó lugar suave para mim, pois surgiu ocasião de recordar e nomear um homem de suavíssimo odor! Refiro-me a Godofredo, bispo de Chartres, que durante vários anos administrou vigorosamente, às próprias custas, uma legação nas regiões da Aquitânia. Falo de coisa que eu mesmo vi. Estava com ele naquela terra quando certo presbítero lhe apresentou um peixe chamado vulgarmente esturjão. Tendo o legado perguntado quanto custara, disse: “Não o recebo se não aceitares o preço”; e entregou cinco soldos ao homem relutante e envergonhado. Da mesma forma, quando estávamos em certa fortaleza, a senhora daquele lugar ofereceu-lhe por devoção, com uma toalha, dois ou três belos pratos, embora de madeira. O homem de consciência escrupulosa olhou-os por algum tempo, elogiou-os, mas não consentiu em recebê-los. Quando1 teria recebido os de prata aquele que recusou os de madeira? Não houve quem pudesse dizer ao legado: Enriquecemos Abraão.2 Ele, porém, pregava livremente a todos com Samuel: Falai de mim diante do Senhor e diante de seu Cristo: se tomei o boi ou o jumento de alguém; se caluniei ou oprimi alguém; se recebi presente da mão de alguém; eu o desprezarei hoje e vo-lo restituirei.3 Oh, se houvesse abundância de homens como os que acabamos de delinear! Que haveria de mais feliz para ti, de mais agradável para aquele século? Não te pareceria a felicidade daqueles tempos a segunda depois da eternidade, quando, procedendo em todas as direções, te visses escoltado por tão ilustre cortejo de bem-aventurados?
15. Se te conheço, hesitas e, puxando um profundo suspiro,4 falas contigo mesmo: “Julgas possível o que se diz? Julgas que viveremos até que isso aconteça? Quem me dará viver para poder vê-lo? Oh, se eu visse em minha vida a Igreja de Deus apoiada em tais colunas! Oh, se eu contemplasse a esposa de meu Senhor entregue a tamanha fidelidade e confiada a tamanha pureza! Que haveria de mais feliz e seguro para mim, quando visse ao meu redor, em tais vidas, simultaneamente guardiões e testemunhas da minha? A eles confiaria seguramente todos os meus segredos, comunicaria meus conselhos e me entregaria por inteiro como a outro eu. Se eu quisesse desviar-me um pouco, não o permitiriam; refreariam o precipitado e despertariam o adormecido. Sua reverência e liberdade me reprimiriam se me exaltasse e me corrigiriam se excedesse; sua constância e fortaleza me firmariam se vacilasse e me levantariam se desconfiasse; sua fé e santidade me incitariam a tudo quanto é santo, honesto, pudico, amável e de boa fama.” E agora, meu Eugênio, torna os olhos para o presente estado da cúria ou da Igreja e para os interesses dos prelados, sobretudo daqueles que estão ao teu redor.
16. Mas basta sobre eles. Eu apenas apalpei; não cavei a parede. A ti é lícito cavar e ver, como filho de profeta. Não me é permitido avançar. Digo uma só coisa que está à vista: ridiculamente, vossos ministros tentam antepor-se a vossos irmãos no presbiterado. A razão não o sustenta, a antiguidade não o conheceu, a autoridade não consente. E, se se constrói uma pretensão com base em seu costume, melhor seria esse costume desprezado do que a Ordem suprema. É, contudo, bastante frívolo o argumento pelo qual sobretudo querem obter isso. “Somos nós”, dizem, “que em toda solenidade assistimos mais junto do senhor Papa, sentamo-nos mais perto dele quando está sentado e, quando avança, precedemos os que seguem atrás.” Tudo isso não é privilégio de dignidade, mas dever do serviço, conforme o próprio nome de diácono interpretado pela administração solene. Enfim, quando os presbíteros se sentam ordenadamente em torno da majestade, vós vos sentais a seus pés. Assistis mais perto para que ele vos tenha mais prontos. Lemos nos Evangelhos que houve uma disputa entre os discípulos sobre qual deles parecia ser o maior.5 Serias feliz se as demais coisas ao teu redor fossem mantidas com tamanho rigor.