6. Que farás, pois? Ainda não despertas contra esses que te cercaram com laços de morte? Peço-te: suporta-me e sustém-me por um pouco. Ou antes, perdoa-me por falar estas coisas não tanto com temeridade quanto com temor. Tenho por ti bom zelo, e oxalá seja tão útil quanto veemente. Sei onde habitas: incrédulos e subversores estão contigo. São lobos, não ovelhas; e, contudo, és pastor deles. É útil a consideração pela qual talvez descubras como, se possível, convertê-los para que não te subvertam. Por que desconfiamos de que possam voltar a ser ovelhas aqueles que puderam tornar-se lobos? Aqui, aqui não te poupo, para que Deus te poupe. Ou nega que és pastor deste povo, ou mostra-te pastor. Não o negarás, para que aquele cuja sé ocupas não te negue como herdeiro. É Pedro, de quem não se sabe ter alguma vez saído ornado de gemas ou sedas, coberto de ouro, montado num cavalo branco, escoltado por soldados ou cercado de ministros ruidosos. Sem essas coisas, contudo, acreditou poder cumprir suficientemente o mandamento salutar: Se me amas, apascenta minhas ovelhas.1 Nessas coisas sucedeste não a Pedro, mas a Constantino. Aconselho que tais coisas sejam toleradas por algum tempo, não desejadas como devidas. Incito-te antes àquilo de que sei seres devedor. Embora avances vestido de púrpura e coberto de ouro, não há razão para teres horror ao trabalho e ao cuidado pastoral. És herdeiro do Pastor: não há razão para te envergonhares do Evangelho. Se evangelizares de boa vontade, terás até glória entre os Apóstolos. Evangelizar é apascentar. Faze a obra de evangelista e terás cumprido a obra de pastor.
7. “Recomendas-me”, dizes, “apascentar dragões e escorpiões, não ovelhas.” Por isso mesmo, digo, acomete-os com maior razão, mas com a palavra, não com a espada. Por que tentarias novamente usurpar a espada que uma vez te mandaram recolher à bainha? Todavia, quem nega que ela seja tua não me parece atender suficientemente à palavra do Senhor: Mete tua espada na bainha.2 Logo, também ela é tua e deve ser desembainhada talvez a teu aceno, embora não por tua mão. De outro modo, se de modo algum te pertencesse, quando os Apóstolos disseram: Eis aqui duas espadas, o Senhor não teria respondido: Basta;3 mas: “É demais.” São, portanto, da Igreja ambas as espadas: a espiritual e a material. Esta deve ser desembainhada em favor da Igreja; aquela, pela própria Igreja; aquela, pela mão do sacerdote; esta, pela mão do soldado, mas certamente ao aceno do sacerdote e por ordem do imperador. Disso trataremos em outra ocasião. Agora, porém, toma a que te foi confiada para ferir, e fere para a salvação, senão todos, senão muitos, ao menos quantos puderes.
8. “Não sou melhor”, dizes, “que meus pais. Qual deles não digo foi ouvido, mas não foi escarnecido por esta casa exasperante?” Por isso mesmo insiste com maior força, para que talvez ouçam e se aquietem; insiste também contra os que resistem. Dizendo isso, talvez eu seja chamado excessivo. Acaso é nossa aquela voz: Insiste oportuna e inoportunamente?4 Chama excessivo, se ousas, aquele que assim falou. Ordena-se ao profeta: Clama, não cesses. A quem, senão aos criminosos e pecadores? Anuncia, diz, ao meu povo seus crimes e à casa de Jacó seus pecados.5 Nota prudentemente que são chamados ao mesmo tempo criminosos e povo do Senhor. Pensa o mesmo destes. Embora criminosos, embora iníquos, cuida para que não ouças: O que não fizeste a um destes meus pequeninos, a mim não o fizeste.6 Confesso que este povo se mostrou até agora de fronte dura e coração indômito; mas não sei como poderias saber com certeza se é também indomável. Pode acontecer o que ainda não aconteceu. Se tu desconfias, para Deus nenhuma palavra será impossível.7 Se têm fronte dura, endurece também a tua contra eles. Nada é tão duro que não ceda ao mais duro. Diz o Senhor ao profeta: Dei-te uma fronte mais dura que a fronte deles.8 Uma só coisa te absolve: teres agido com aquele povo de modo a poderes dizer: “Povo meu, que devia fazer por ti e não fiz?” Se assim fizeste e nada aproveitaste, resta enfim o que fazer e dizer: “Sai de Ur dos caldeus”, e: “É necessário que eu evangelize também a outras cidades.”9 Creio que não te arrependerás do exílio, trocando a cidade pelo mundo.