19. Resta que tua consideração atenda em geral a todo o estado da Igreja: se os povos estão sujeitos aos clérigos, os clérigos aos sacerdotes, os sacerdotes a Deus, com a humildade devida; se nos mosteiros e lugares religiosos se conserva a ordem e vigia a disciplina; se a censura eclesiástica mantém vigor contra obras e doutrinas depravadas; se as vinhas florescem pela honestidade e santidade dos sacerdotes; se as flores produzem frutos, isto é, a obediência1 dos povos fiéis; se, enfim, vossos próprios mandamentos e institutos apostólicos são observados com a solicitude devida, para que nada no campo de teu Senhor seja encontrado inculto por negligência ou subtraído por fraude. Não duvides que se pode encontrar. Tenho à mão — omitindo muitas e inumeráveis coisas que por toda parte jazem negligenciadas — algumas até das que tua destra plantou e que posso mostrar arrancadas. Tua boca não promulgou no concílio de Reims os capítulos seguintes? Quem os guarda? Quem os guardou? Enganas-te, se pensas que são guardados. Se não o pensas, tu mesmo pecaste, seja estabelecendo o que não seria guardado, seja dissimulando que não o é. “Ordenamos”, disseste, “que tanto os bispos como os clérigos não ofendam o olhar dos que os contemplam — de quem devem ser forma e exemplo —, seja pela superfluidade ou desonesta variedade das cores, seja pelo corte das vestes ou pela tonsura; mas antes condenem os erros por seus atos e demonstrem, por sua conduta, amor à inocência, como exige a dignidade da ordem clerical. Se, advertidos por seus bispos, não obedecerem dentro de quarenta dias, sejam privados dos benefícios eclesiásticos pela autoridade dos mesmos pontífices. Os bispos, porém, se negligenciarem aplicar a pena fixada,2 visto que as culpas dos inferiores não devem ser imputadas a ninguém mais do que aos reitores indolentes e negligentes, abstenham-se do ofício pontifical até que imponham aos clérigos a eles sujeitos a pena por nós estabelecida.3 Julgamos também dever acrescentar que ninguém seja constituído arquidiácono ou decano se não for ordenado diácono ou presbítero. Os arquidiáconos, decanos e prepósitos que estiverem abaixo das ordens mencionadas, se, desobedientes, desprezarem receber a ordenação, sejam privados da honra recebida. Proibimos, porém, que as referidas honras sejam concedidas a jovens ou a quem não esteja constituído nas ordens sacras, mas somente àqueles que resplandecem pela prudência e pelo mérito da vida.4”
20. Estas são tuas palavras; tu as sancionaste. O que foi levado a efeito? Ainda são promovidos na Igreja jovens e homens que estão abaixo das ordens sacras. Quanto ao primeiro capítulo: proibiu-se o luxo das vestes, mas não se restringiu; ditou-se a pena, mas ela não foi aplicada. Já é o quarto ano desde que ouvimos dar-se o mandamento; e ainda não choramos nenhum clérigo privado de benefício, nenhum bispo suspenso do ofício por isso. Mas é digno do mais amargo pranto o que se seguiu. O quê? A impunidade, filha da incúria, mãe da insolência, raiz da impudência, nutriz das transgressões. E serás bem-aventurado se te empenhares com todo cuidado em evitar a incúria, primeira mãe de todos os males. Dedicar-te-ás a isso. Então levanta os olhos e vê se a pele de várias cores não desfigura, como antes, a Ordem sagrada; se o corte desmedido não desnuda quase até as virilhas, como antes. Costumam dizer: “Acaso Deus cuida das vestes e não antes dos costumes?” Mas esta forma das vestes é indício da deformidade dos espíritos e costumes. Que significa os clérigos quererem ser uma coisa e parecer outra? Isso é pouco casto e pouco sincero. No traje, soldados; no ganho, clérigos; na conduta, nenhum dos dois. Pois nem combatem como soldados, nem evangelizam como clérigos. De que ordem são? Querendo ser de ambas, abandonam ambas e confundem ambas. Cada um, diz a Escritura, ressuscitará em sua própria ordem.5 Estes, em qual? Acaso os que pecaram sem ordem perecerão sem ordem? Ou, se se crê verdadeiramente que Deus, sumamente sábio, nada deixa desordenado do mais alto ao mais baixo, temo que eles não devam ser ordenados em outro lugar senão onde não há ordem alguma, mas habita o horror sempiterno. Ó lamentável esposa, confiada a tais paraninfos! Não temem reter para o próprio lucro o que lhes foi entregue para o culto dela. Não são certamente amigos do esposo, mas rivais. Basta sobre as coisas que estão sob ti; não quanto à abundância da matéria, que é excessiva, mas quanto ao que me propus. Devem agora ser vistas as coisas que estão ao teu redor; o quarto livro, porém, nos abrirá a porta para elas.