De Consideratione
Bernard of Clairvaux (1090–1153)
First published 1839
De Consideratione ad Eugenium (On Consideration, to Eugene) is Bernard of Clairvaux's last major treatise, composed between 1149 and 1152 and addressed to Pope Eugene III, a former monk of Clairvaux whom Bernard had personally formed before his elevation to the papacy. Written in five books, the work is at once a spiritual manual and a mirror for princes: Bernard urges the newly burdened pope not to let the ceaseless business of Rome — litigation, petitions, the "malicious occupations" of the Curia — extinguish the interior life of consideratio, the reflective self-examination that alone keeps action rightly ordered. The treatise moves outward in careful stages, following the fourfold scheme Bernard sets as its architecture: the pope's consideration of himself, of what lies beneath him (the clergy and people of Rome), of what surrounds him (the cardinals and household), and finally of what lies above him, culminating in Book V's ascent toward the contemplation of God, angelic hierarchy, and the divine nature itself. Alongside its mystical and pastoral concerns, the work is notable for its unsparing critique of curial corruption, its meditation on the proper limits of papal power (including the celebrated distinction between the "two swords"), and its warning — startling in an address to a reigning pope — that Eugene's worldly pomp descends "not from Peter, but from Constantine." Blending rhetorical intensity, biblical exegesis, and Cistercian spirituality, De Consideratione stands as one of the most influential texts of twelfth-century ecclesiology and remains a foundational witness to the monastic critique of ecclesiastical power.
Prólogo
Liber Primus
Caput I: Compadece-se do pontífice, oprimido por tão diversas ocupações
Caput II: A força do costume para induzir maus hábitos e a dureza do coração
Caput III: É indigno aos príncipes da Igreja ocupar-se continuamente em ouvir e decidir as causas dos litigantes
Caput IV: Qual servidão é digna e qual é indigna do servo dos servos de Deus
Caput V: Não se deve cuidar dos outros com descuido e negligência de si mesmo
Caput VI: O poder judiciário compete não tanto aos bispos quanto aos príncipes
Caput VII: Deve-se reservar, antes de tudo, tempo para a piedade e a consideração das coisas eternas
Caput VIII: Da piedade e da contemplação nasce a belíssima harmonia e conexão das quatro virtudes principais
Caput IX: Os exemplos recentes dos pontífices devem ser corrigidos aos poucos; os antigos, imitados
Caput X: Censura severamente os abusos e as fraudes dos advogados, juízes e procuradores
Caput XI: Contra os advogados e procuradores que lucram com a iniquidade, deve-se proceder severamente
Liber Secundus
Caput I: Apresenta uma apologia pelo desfecho infeliz da expedição empreendida à Terra Santa
Caput II: Distinção entre consideração e contemplação
Caput III: Assinala os quatro pontos da consideração
Caput IV: Compreende o conhecimento de si mesmo numa tríplice consideração; desenvolve aqui seu primeiro membro
Caput V: Propõe o segundo membro da consideração de si: quem seja e de onde venha
Caput VI: Qual deve ser o empenho dos príncipes da Igreja
Caput VII: Retomando a pergunta anterior, examina com mais diligência quem ele seja
Caput VIII: Discorre sobre a excelência da dignidade e do poder pontifícios
Caput IX: Recomenda a consideração da própria natureza
Caput X: Expõe o terceiro membro da consideração de si: como ele seja
Caput XI: Recomenda seriamente ao pontífice um exame sério de si
Caput XII: Nem se deve relaxar demais o ânimo na prosperidade, nem desfalecer na adversidade
Caput XIII: Desaconselha ao pontífice o ócio ocioso, as frivolidades e as palavras vãs
Caput XIV: Deve-se evitar sobretudo a acepção de pessoas nos julgamentos
Liber Tertius
Caput I: Compete ao pontífice não tanto sujeitar todos ao seu domínio, mas conduzir todos, quanto possível, ao seio da Igreja
Caput II: Que medida deve ser observada nas apelações à Sé Apostólica
Caput III: Os prelados da Igreja foram constituídos não tanto para presidir e apascentar a si mesmos, quanto para beneficiar os outros
Caput IV: Não se devem confundir e perturbar temerariamente os graus das ordens e dignidades existentes na Igreja. Daí censura o abuso de buscar privilégios e isenções
14. Ouve outra coisa, se é que é outra, pois talvez alguém diga que pertence ao mesmo assunto. Tua consideração o verá. Parece-me não distar muito da verdade quem julgar que talvez deva ser posta entre as espécies de avareza. Eu não negaria que seja uma espécie dela ou tenha sua aparência. Importa à tua perfeição evitar tanto as coisas más como as aparências do mal. Em uma, cuidas da consciência; na outra, da fama. Considera ilícito para ti — ainda que talvez seja lícito em outros casos — tudo o que tiver aparência má. Interroga, enfim, teus maiores, e eles te dirão: Abstende-vos de toda aparência do mal.1 O ministro do Senhor imite o Senhor, pois ele mesmo diz: Se alguém me serve, siga-me.2 E dele tens: O Senhor reinou, revestiu-se de beleza; o Senhor revestiu-se de fortaleza.3 Sê tu também forte na fé, formoso na glória, e terás provado ser imitador de Deus. Tua fortaleza é a confiança de uma consciência fiel; tua beleza, o esplendor da boa reputação. Reveste-te, peço-te, de fortaleza, pois a alegria do Senhor é tua fortaleza. De tua formosura e beleza ele igualmente se deleita como de sua própria semelhança. Reveste-te das vestes de tua glória, veste-te de roupas duplas, com as quais aquela mulher forte costuma vestir os seus domésticos.4 Não haja na consciência a fraqueza vacilante de uma fé pequena; não haja na fama a mancha de uma aparência má: e estarás vestido de roupas duplas, e o esposo se alegrará sobre a esposa, tua alma, e teu Deus se alegrará sobre ti. Admiras para onde levo isso, ignorando ainda o que quero dizer. Não te detenho mais. Falo do murmúrio e da queixa das igrejas. Clamam que são mutiladas e desmembradas. Não há nenhuma, ou pouquíssimas, que não sintam ou não temam esta ferida. Perguntas qual? Abades são subtraídos aos bispos, bispos aos arcebispos, arcebispos aos patriarcas ou primazes. É boa esta aparência? Admirável seria que a própria obra pudesse ser desculpada. Procedendo assim, provais ter plenitude de poder, mas talvez não de justiça. Fazeis isso porque podeis; resta saber se também deveis. Fostes postos para conservar a cada qual seus graus e ordens de honras e dignidades, não para lhes ter inveja, como diz um dos vossos: A quem honra, honra.5
15. O homem espiritual que tudo julga, sem ser ele próprio julgado por ninguém,6 fará preceder toda obra sua de uma tríplice consideração: primeiro, se é lícito; depois, se convém; por fim, se também é proveitoso. Pois, ainda que seja certo na filosofia cristã não convir senão o que é lícito e não ser útil senão o que convém e é lícito, nem por isso se seguirá imediatamente que tudo o que é lícito convenha ou seja útil. Apliquemos, se podemos, essas três coisas a esta obra. Como não seria indecoroso para ti usar a vontade em lugar da lei e, por não haver a quem se possa apelar contra ti, exercer o poder e negligenciar a razão? És maior que teu Senhor, que diz: Não vim fazer a minha vontade?7 Embora não seja menos próprio de ânimo abatido que de ânimo soberbo agir, como ser privado de razão, não segundo a razão, mas segundo o capricho; não pelo juízo, mas pelo apetite. Que há de mais bestial? E, se é indigno de qualquer ser racional viver como animal, quem suportará em ti, reitor de todos, tamanha afronta à natureza e injúria à honra? Degenerando assim — o que não aconteça —, tornarias próprio de ti o opróbrio geral: O homem, quando estava em honra, não compreendeu; foi comparado aos animais irracionais e tornou-se semelhante a eles.8 E que seria tão indigno de ti como, possuindo o todo, não te contentares com o todo, a menos que procures não sei de que modo ainda fazer tuas certas minúcias e pequenas porções da totalidade que te foi confiada, como se não fossem tuas? Quero que também aqui recordes a parábola de Natã sobre o homem que, tendo muitas ovelhas, cobiçou a única do pobre.9 Venha ainda a este ponto o feito — ou antes, o crime — do rei Acab, que possuía a totalidade das coisas e desejou uma só vinha. Afaste Deus de ti o que ele ouviu: Mataste e possuíste.10
16. Não quero, porém, que me alegues o fruto dessa emancipação. Não há nenhum, senão que daí os bispos se tornam mais insolentes e os monges, mais dissolutos. E por que também mais pobres? Examina com maior diligência, por toda parte, os bens e a vida de tais libertos, e verás nos primeiros uma penúria sobremaneira vergonhosa e na segunda, secularidade. É esta a prole gêmea da mãe nociva, a liberdade. Por que não pecaria com maior licença um povo errante e mal libertado, quando não há quem o repreenda? Por que não seria também espoliada e saqueada com maior licença uma religião desarmada, quando não há quem a defenda? A quem recorrerão como refúgio? Acaso aos bispos, que se doem da injúria? Estes veem certamente com olhos sorridentes tanto os males que eles fazem como os que sofrem. Que utilidade há, enfim, neste sangue? Temo que seja aquela com que Deus ameaçou pelo profeta: Ele morrerá em sua iniquidade, mas requererei de tua mão o sangue dele.11 Pois, se aquele que é subtraído se exalta, e aquele de quem ele é subtraído se abrasa;12 como será inocente aquele que subtrai? É pouco: envolvemos o fogo; ouve mais claramente. Se aquele que murmura está morto segundo a alma, como vive quem o instiga? E como não é culpado da morte de ambos, e igualmente da sua, quem deu a espada com que ambos morreriam? É isso o que eu dissera: Mataste e possuíste. Acrescenta que os que ouvem se escandalizam, indignam-se, detraem e blasfemam, isto é, são feridos de morte. Não é boa a árvore que produz tais frutos: insolências, dissoluções, dilapidações, rivalidades, escândalos, ódios e, o que mais se deve deplorar, graves inimizades entre as igrejas e discórdias perpétuas. Vês quão verdadeira é aquela palavra: Tudo me é lícito, mas nem tudo é útil.13 E se talvez nem sequer seja lícito? Perdoa-me: não sou facilmente levado a admitir como lícito o que dá à luz tantas coisas ilícitas.
17. Julgas-te, enfim, autorizado a mutilar as igrejas de seus membros, confundir a ordem, perturbar os limites estabelecidos por teus pais? Se é próprio da justiça conservar a cada qual o seu direito, como poderia convir ao justo tirar de alguém o que é seu? Enganas-te se julgas que, assim como é suprema, somente vossa potestade apostólica foi instituída por Deus. Se assim pensas, discordas daquele que diz: Não há poder senão de Deus. Por isso, o que segue — Quem resiste ao poder resiste à ordenação de Deus —, embora valha principalmente a teu favor, não vale exclusivamente. Enfim, ele mesmo diz: Toda alma esteja sujeita aos poderes superiores.14 Não diz “à autoridade superior”, como se fosse uma só, mas “às autoridades superiores”, como sendo muitas. Portanto, não é somente a tua autoridade que vem do Senhor; há também as medianas e as inferiores. E, assim como aqueles que Deus uniu não devem ser separados,15 tampouco os que ele subordinou devem ser equiparados. Produzes um monstro se, removendo o dedo da mão, o fazes pender da cabeça, superior à mão e colateral ao braço. Assim ocorre se dispões os membros no corpo de Cristo de outro modo que ele próprio. A menos que julgues ser outro aquele que pôs na Igreja uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, outros como doutores e pastores, para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo. Este corpo, que o próprio Paulo te descreve com linguagem verdadeiramente apostólica e ajusta do modo mais conveniente à cabeça, ele declara estar todo compactado a partir dela e unido por toda juntura de auxílio, segundo a operação proporcionada a cada membro, realizando o crescimento do corpo para sua edificação na caridade.16 Não reputes vil esta forma por estar na terra: ela tem seu modelo no céu. Pois o Filho nada pode fazer senão o que vê o Pai fazer,17 sobretudo quando lhe foi dito sob o nome de Moisés: Vê que faças tudo segundo o modelo que te foi mostrado no monte.18
18. Vira isso aquele que dizia: Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, preparada por Deus.19 Julgo que isso foi dito por semelhança: assim como lá os Serafins e Querubins e todos os demais, até os Anjos e Arcanjos, são ordenados sob uma só cabeça, Deus, assim também aqui, sob um só sumo Pontífice, estão os primazes ou patriarcas, arcebispos, bispos, presbíteros ou abades e os demais nessa ordem. Não se deve ter em pouca conta o que tem Deus por autor e traz do céu sua origem. Se um bispo disser: “Não quero estar sob o arcebispo”; ou um abade: “Não quero obedecer ao bispo”, isso não vem do céu. A menos que tenhas ouvido algum dos Anjos dizer: “Não quero estar sob os Arcanjos”; ou alguém de qualquer outra ordem inferior não suportar estar sujeito a ninguém senão a Deus. Perguntas: proíbes dispensar? Não; proíbo dissipar. Não sou tão rude que ignore que fostes constituídos dispensadores, mas para edificação, não para destruição.20 Enfim, exige-se entre os dispensadores que cada um seja encontrado fiel.21 Onde urge a necessidade, a dispensação é escusável; onde a utilidade a provoca, a dispensação é louvável. Refiro-me à utilidade comum, não à própria. Pois, quando nada disso existe, não é dispensação fiel, mas dissipação cruel. Quem ignora, contudo, que alguns mosteiros situados em diversas dioceses pertenceram mais especialmente, desde sua fundação, à Sé Apostólica, conforme a vontade de seus fundadores? Mas uma coisa é o que concede a devoção; outra, o que maquina a ambição impaciente da sujeição. E basta sobre isso.