De Consideratione
Bernard of Clairvaux (1090–1153)
First published 1839
De Consideratione ad Eugenium (On Consideration, to Eugene) is Bernard of Clairvaux's last major treatise, composed between 1149 and 1152 and addressed to Pope Eugene III, a former monk of Clairvaux whom Bernard had personally formed before his elevation to the papacy. Written in five books, the work is at once a spiritual manual and a mirror for princes: Bernard urges the newly burdened pope not to let the ceaseless business of Rome — litigation, petitions, the "malicious occupations" of the Curia — extinguish the interior life of consideratio, the reflective self-examination that alone keeps action rightly ordered. The treatise moves outward in careful stages, following the fourfold scheme Bernard sets as its architecture: the pope's consideration of himself, of what lies beneath him (the clergy and people of Rome), of what surrounds him (the cardinals and household), and finally of what lies above him, culminating in Book V's ascent toward the contemplation of God, angelic hierarchy, and the divine nature itself. Alongside its mystical and pastoral concerns, the work is notable for its unsparing critique of curial corruption, its meditation on the proper limits of papal power (including the celebrated distinction between the "two swords"), and its warning — startling in an address to a reigning pope — that Eugene's worldly pomp descends "not from Peter, but from Constantine." Blending rhetorical intensity, biblical exegesis, and Cistercian spirituality, De Consideratione stands as one of the most influential texts of twelfth-century ecclesiology and remains a foundational witness to the monastic critique of ecclesiastical power.
Prólogo
Liber Primus
Caput I: Compadece-se do pontífice, oprimido por tão diversas ocupações
Caput II: A força do costume para induzir maus hábitos e a dureza do coração
Caput III: É indigno aos príncipes da Igreja ocupar-se continuamente em ouvir e decidir as causas dos litigantes
Caput IV: Qual servidão é digna e qual é indigna do servo dos servos de Deus
Caput V: Não se deve cuidar dos outros com descuido e negligência de si mesmo
Caput VI: O poder judiciário compete não tanto aos bispos quanto aos príncipes
Caput VII: Deve-se reservar, antes de tudo, tempo para a piedade e a consideração das coisas eternas
Caput VIII: Da piedade e da contemplação nasce a belíssima harmonia e conexão das quatro virtudes principais
Caput IX: Os exemplos recentes dos pontífices devem ser corrigidos aos poucos; os antigos, imitados
Caput X: Censura severamente os abusos e as fraudes dos advogados, juízes e procuradores
Caput XI: Contra os advogados e procuradores que lucram com a iniquidade, deve-se proceder severamente
Liber Secundus
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Caput I: Apresenta uma apologia pelo desfecho infeliz da expedição empreendida à Terra Santa
1. Lembrado de minha promessa, pela qual já há algum tempo estou obrigado para contigo, ó excelente homem, papa Eugênio, quero enfim, ainda que tarde, desobrigar-me por seu cumprimento. Envergonhar-me-ia da demora, se tivesse consciência de descuido ou desprezo. Não é assim; caímos, como tu mesmo sabes, num tempo grave, que parecia impor a suspensão até do uso da vida, quanto mais dos estudos: o Senhor, provocado por nossos pecados, pareceu de algum modo julgar o orbe da terra antes do tempo, com equidade, sim, mas esquecido de sua misericórdia. Não poupou seu povo, nem seu nome. Não dizem entre as nações: Onde está o Deus deles?1 Nem é de admirar. Os filhos da Igreja e os que são designados pelo nome cristão foram prostrados no deserto, mortos pela espada ou consumidos pela fome. Derramou-se o desprezo sobre os príncipes, e o Senhor os fez errar pelo intransitável, não pelo caminho.2 Ruína e infelicidade estão em seus caminhos;3 pavor, tristeza e confusão, no íntimo de seus reis. Como estão confundidos os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam o bem!4 Dissemos: “Paz”, e não há paz; prometemos bens, e eis a perturbação. Como se tivéssemos procedido com temeridade ou leviandade nessa obra! Corremos certamente nela, não ao acaso, mas por tua ordem, ou melhor, por ordem de Deus através de ti. Por que, então, jejuamos, e ele não olhou? Humilhamos nossas almas, e ele não soube? Em tudo isso sua ira não se afastou, mas sua mão continua estendida. Com quanta paciência ainda ouve as vozes sacrílegas e os egípcios blasfemando que astutamente os tirou para matá-los no deserto?5 E certamente os juízos do Senhor são verdadeiros:6 quem o ignora? Mas este juízo é um abismo tão profundo que me parece justo declarar bem-aventurado quem nele não se escandalizar.
2. E como, contudo, ousa a temeridade humana repreender o que de modo algum pode compreender? Recordemos os juízos do alto, que existem desde o século, para ver se neles encontramos consolação. Alguém disse: Lembrei-me de teus juízos desde o século, Senhor, e fui consolado.7 Digo uma coisa que ninguém desconhece, mas que agora ninguém conhece. Assim são os corações dos mortais: o que sabemos quando não é necessário, ignoramos na necessidade. Moisés, prestes a retirar o povo da terra do Egito, prometeu-lhe uma terra melhor.8 Quando, com efeito, o povo, que só conhecia a terra, o seguiria de outro modo? Retirou-o; mas não introduziu os que retirara na terra prometida. Nem se podem imputar à temeridade do chefe os tristes e inesperados acontecimentos. Tudo fazia por ordem do Senhor, com a cooperação do Senhor e com a obra confirmada pelos sinais que se seguiam. “Mas aquele povo”, dizes, “era de dura cerviz, sempre contendendo contra o Senhor e contra Moisés, seu servo.” Está bem: aqueles eram incrédulos e rebeldes; e estes? Interroga-os. Por que preciso dizer o que eles mesmos confessam? Digo uma só coisa: que proveito podiam alcançar aqueles que sempre voltavam atrás enquanto caminhavam? Quando estes, em todo o caminho, não retornaram de coração ao Egito? Se aqueles caíram e pereceram por sua iniquidade, admiramo-nos de que estes, fazendo o mesmo, tenham sofrido o mesmo? Acaso a queda daqueles contrariou as promessas de Deus? Tampouco a destes. As promessas de Deus nunca prejudicam a justiça de Deus. Ouve ainda outra coisa.
3. Benjamim pecou; as demais tribos se cingem para a vingança, não sem o assentimento de Deus. Ele próprio designou o chefe dos combatentes. Assim, entram em combate confiados numa força maior, numa causa melhor e, o que é superior a tudo isso, no favor divino. Mas quão terrível é Deus em seus desígnios sobre os filhos dos homens!9 Os vingadores do crime voltaram as costas aos criminosos, os mais numerosos aos menos numerosos. Recorrem, porém, ao Senhor. E o Senhor lhes diz: Subi. Sobem de novo e de novo são desbaratados e confundidos. Assim, favorecendo-os Deus primeiro e depois ordenando-lhes, os justos empreendem um combate justo e sucumbem. Mas, quanto mais inferiores se mostraram no combate, tanto mais superiores foram encontrados na fé. Que pensas que estes me fariam se, por minha exortação, subissem uma segunda vez e uma segunda vez sucumbissem? Quando me ouviriam aconselhar uma terceira tentativa, a repetição de uma obra em que já uma e duas vezes se haviam frustrado? E contudo os israelitas, sem considerar a primeira e a segunda frustração, obedecem pela terceira vez e vencem.10 Talvez estes digam: “Como sabemos que a palavra saiu do Senhor? Que sinais fazes para acreditarmos em ti?” Não cabe a mim responder a isso: poupe-se meu pudor. Responde tu por mim e por ti mesmo, segundo o que ouviste e viste, ou ao menos segundo o que Deus te inspirar.
4. Talvez te admires de que eu prossiga nesses assuntos, tendo proposto outro. Faço-o não por ter esquecido meu propósito, mas porque não os julgo alheios a ele. Meu discurso, como recordo, trata da consideração e se dirige à tua Dignidade. É realmente uma grande questão, que necessita de não pequena consideração. Se as grandes questões devem ser consideradas pelos grandes, a quem compete tal empenho tanto quanto a ti, que não tens igual sobre a terra? Tu, porém, agirás segundo a sabedoria e o poder que te foram dados do alto. Não cabe à minha humildade ditar-te que algo se faça deste ou daquele modo. Basta ter comunicado que algo deve ser feito, a fim de que a Igreja seja consolada e se feche a boca dos que falam iniquidades. Sejam essas poucas coisas ditas a modo de apologia, para que tua consciência, quaisquer que elas sejam, receba de mim aquilo por que me tenha por desculpado, e a ti também, se não diante dos que avaliam os atos por seus resultados, ao menos diante de ti mesmo. A desculpa perfeita e completa para cada um é o testemunho de sua consciência. Pouco me importa ser julgado por aqueles que chamam ao bem mal e ao mal bem, pondo a luz por trevas e as trevas por luz.11 Se é necessário que aconteça uma de duas coisas, prefiro que o murmúrio dos homens se volte contra nós, e não contra Deus. É bom para mim que ele se digne usar-me como escudo. Recebo de bom grado sobre mim as línguas maldizentes dos detratores e os dardos envenenados dos blasfemadores, para que não o atinjam. Não recuso ficar sem glória, para que não se ataque a glória de Deus. Quem me concederá gloriar-me naquela voz: Por tua causa suportei o opróbrio; a confusão cobriu meu rosto? Minha glória é tornar-me participante de Cristo, cuja é aquela voz: Os opróbrios dos que te insultavam caíram sobre mim.12 Retorne agora a pena à sua matéria, e prossiga o discurso, por seu caminho, naquilo que propusemos.
Caput II: Distinção entre consideração e contemplação
5. Considera, antes de tudo, o que chamo de consideração. Não quero que se entenda inteiramente o mesmo que contemplação, pois esta se refere mais à certeza das coisas, aquela à investigação. Nesse sentido, pode-se defini-las assim: contemplação: intuição verdadeira e certa do espírito; consideração: reflexão intensa dirigida à investigação da verdade. A primeira é também apreensão não duvidosa da verdade; a segunda, aplicação do espírito que busca a verdade. Embora se costumasse empregar uma e outra indiferentemente em lugar da outra.
Caput III: Assinala os quatro pontos da consideração
6. Quanto ao fruto da consideração, penso que quatro coisas, conforme me ocorrem, devem ser consideradas por ti: a ti mesmo, ao que está sob ti, ao que está ao teu redor e ao que está acima de ti. Comece por ti tua consideração, para que não te estendas inutilmente a outras coisas, negligenciando-te. De que te aproveita ganhar o mundo inteiro, se perdes somente a ti?1 Ainda que sejas sábio, falta-te algo para a sabedoria, se não o fores para ti mesmo. Quanto? Segundo penso, tudo. Ainda que conheças todos os mistérios, a extensão da terra, as alturas do céu e as profundezas do mar, se não te conheceres, serás semelhante a quem edifica sem fundamento, fazendo uma ruína, não uma construção. Tudo o que construíres fora de ti será como um monte de pó exposto aos ventos. Não é sábio, portanto, quem não o é para si. O sábio será sábio para si e beberá ele primeiro da fonte de seu poço. Comece, pois, por ti tua consideração; e não somente comece, mas termine em ti. Aonde quer que vague, reconduze-a a ti com fruto de salvação. Sê tu o primeiro para ti, tu o último. Toma o exemplo do sumo Pai de todas as coisas, que emite2 e retém seu Verbo. Teu verbo é tua consideração: se procede, não se afaste. Progrida sem sair; saia sem abandonar. Na aquisição da salvação, ninguém te é mais próximo do que tu, filho único de tua mãe. Nada penses contra tua própria salvação. Disse pouco: deveria ter dito “além de”, e não “contra”. Tudo o que se oferecer à consideração sem de algum modo dizer respeito à tua própria salvação deve ser rejeitado.
Caput IV: Compreende o conhecimento de si mesmo numa tríplice consideração; desenvolve aqui seu primeiro membro
7. Essa consideração de ti se divide em três, se considerares o que és, quem és e como és: o que és por natureza, quem és por tua condição pessoal, como és nos costumes. O que és, por exemplo? Homem. Quem és? Papa ou Sumo Pontífice. Como és? Benigno, manso ou algo semelhante. Embora investigar o primeiro seja mais filosófico do que apostólico, na definição do homem está aquilo que dizem: animal racional e mortal. Se quiseres examiná-lo com mais diligência, é-te lícito. Nada há nele que contrarie tua profissão ou tua dignidade; há, sim, o que pode trazer salvação. A quem considera conjuntamente estas duas coisas, racional e mortal, apresenta-se este fruto: que o mortal presente em ti humilhe o racional e, por sua vez, o racional conforte o mortal; nenhuma das duas coisas será negligenciada pelo homem circunspecto. Se o presente lugar ainda exigir que se considerem outras coisas, serão tratadas abaixo, talvez com mais utilidade pela comparação das partes.
Caput V: Propõe o segundo membro da consideração de si: quem seja e de onde venha
8. Agora se deve observar quem és e de que foste feito. Quanto ao que disse, “de que”, talvez eu deva omiti-lo e deixá-lo antes ao teu próprio reconhecimento. Digo ser indigno de ti proceder abaixo da perfeição, elevado como foste a uma perfeição tão grande. Por que não te envergonharia ser encontrado mínimo nas grandes coisas, tu que te recordas de ter sido grande nas mínimas? Não esqueceste tua primeira profissão;1 não caiu da mente o que foi subtraído à mão, nem sequer do afeto. Não será inútil tê-la diante dos olhos em todas as tuas ordens, julgamentos e instituições. Essa consideração faz de ti um desprezador da honra no meio da própria honra. Isso é grande. Não se afaste de teu peito: é para ti um escudo contra aquela flecha: O homem, quando estava em honra, não entendeu.2 Dize, pois, a ti mesmo: “Eu era desprezado na casa de meu Deus.” Que é isto: ser elevado, pobre e desprezado, acima de nações e reinos? Quem sou eu, ou qual é a casa de meu pai, para que me assente acima dos excelsos? Certamente, aquele que me disse: Amigo, sobe mais alto,3 confia que eu seria seu amigo. Se eu for encontrado inferior, isso não é proveitoso. Quem elevou também pode derrubar. Tardia será a queixa: Elevando-me, abateste-me.4 A elevação não deve adular, onde a solicitude é maior. Aquela aumenta o perigo; esta prova o amigo. Cingamo-nos desta, se não quisermos por fim ocupar, com vergonha, o último lugar.
Caput VI: Qual deve ser o empenho dos príncipes da Igreja
9. Não podemos dissimular que foste feito superior; mas é preciso considerar por todos os modos para quê. Não foi, penso, para dominar. Também o profeta, quando foi elevado de modo semelhante, ouviu: Para arrancares e destruíres, dispersares e dissipadares, edificares e plantares.1 O que há aí que soe a orgulho? Sob uma imagem de trabalho camponês se exprime antes o labor espiritual. Assim também nós, para que tenhamos elevada opinião de nós mesmos,2 reconheçamos: foi-te imposto um ministério, não te foi dado um domínio. Não sou maior que o profeta; e, se acaso sou igual em poder, não há comparação nos méritos. Dize isso a ti mesmo e ensina a ti, que ensinas os outros. Considera-te como um dos profetas. Não te basta? É até demais. Mas pela graça de Deus és o que és. Quê? Sê como o profeta: acaso mais que profeta? Se tens sabedoria, estarás contente com a medida que Deus mediu para ti; o que vai além vem do mal. Aprende, pelo exemplo profético, a presidir não tanto para mandar quanto para fazer o que o tempo exige. Aprende que precisas de uma enxada, não de um cetro, para fazeres a obra do profeta. Ele não subiu para reinar, mas para extirpar. Julgas que também tu encontrarás3 algo que deva ser trabalhado no campo de teu Senhor? Muitíssimo. Os Profetas não puderam limpar4 tudo; deixaram algo para seus filhos, os Apóstolos, fazerem; e teus próprios pais deixaram algo para ti. Tampouco tu bastarás para tudo. Deixarás certamente algo a teu sucessor, ele a outros, e outros a outros, até o fim. Por fim, perto da hora undécima, os operários são censurados pelo ócio e enviados à vinha. Teus predecessores, os Apóstolos, ouviram: A messe é grande, mas os operários são poucos.5 Reivindica para ti a herança paterna; pois, se és filho, és também herdeiro.6 Para te mostrares herdeiro, desperta para o cuidado; não te entorpeças no ócio, para que não se diga também a ti: Por que ficas aqui o dia todo ocioso?7
10. Muito menos convém que sejas encontrado dissolvido nos prazeres ou reclinado nas pompas. Nada disso te atribuem as tábuas do testador. Mas o quê? Se te contentares com seu teor, herdarás antes cuidado e trabalho do que glória e riquezas. A cátedra te adula? É uma atalaia. Dela vigias sobre tudo, pois o nome de bispo te anuncia não domínio, mas ofício. Por que foste colocado no alto, senão para veres tudo, tu que foste constituído vigia sobre tudo? Essa visão gera prontidão, não ócio. Quando8 se pode gloriar onde não é lícito estar ocioso? Não há lugar para o ócio onde urge a assídua solicitude de todas as Igrejas. Que mais te deixou o santo Apóstolo? O que tenho, diz, isso te dou. O quê? Sei uma coisa: não é ouro nem prata, pois ele mesmo diz: Não tenho prata nem ouro.9 Se vieres a tê-los, usa-os não ao sabor do desejo, mas conforme o tempo. Assim os usarás como se não os usasses. Em si mesmos, quanto ao bem do ânimo, não são bens nem males; seu uso pode ser bom, o abuso é mau, a preocupação com eles é pior, o ganho, mais torpe. Seja: reivindica-os para ti por alguma outra razão, mas não por direito apostólico. Ele não podia dar-te o que não possuía. O que possuía, isso deu: a solicitude, como disse, pelas Igrejas. Acaso a dominação? Ouve-o: Não dominando sobre o clero, mas tornando-vos modelo do rebanho.10 E para que não julgues que foi dito por mera humildade, e não também segundo a verdade, a voz do Senhor diz no Evangelho: Os reis das nações as dominam, e os que têm poder sobre elas são chamados benfeitores; e acrescenta: Vós, porém, não assim.11 É claro: aos Apóstolos se proíbe a dominação.
11. Vai, pois, e ousa usurpar para ti o apostolado enquanto dominas, ou o domínio enquanto apostólico. De ambos estás inteiramente proibido. Se quiseres possuir ambos ao mesmo tempo, perderás ambos. Não te julgues excluído12 do número daqueles de quem Deus se queixa: Eles reinaram, mas não por mim; tornaram-se príncipes, mas eu não os conheci.13 Se te agrada reinar sem Deus, tens glória, mas não diante de Deus. Se guardamos a proibição, ouçamos o preceito: O maior entre vós faça-se como o mais jovem; e o que precede, como aquele que serve. Esta é a forma apostólica: proíbe-se a dominação, impõe-se o ministério, recomendado pelo exemplo do próprio Legislador, que acrescenta: Eu estou no meio de vós como aquele que serve.14 Quem julgará sem glória para si um título com que primeiro se distinguiu o Senhor da glória? Com razão Paulo nele se gloria, dizendo: São ministros de Cristo, e eu também. E acrescenta: Falo como menos sábio: eu mais. Em muitíssimos trabalhos, mais abundantemente nos cárceres, em feridas acima da medida, muitas vezes em mortes.15 Ó ministério ilustre! Que principado é mais glorioso? Se é necessário gloriar-se, propõe-se a ti a forma dos santos, a glória dos Apóstolos. Parece-te pequena? Quem me concederá ser semelhante na glória dos santos? Clama o profeta: Quão honrados foram para mim teus amigos, ó Deus; quão fortalecido foi o principado deles.16 Clama o Apóstolo: Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.17
12. Desejo que sempre te glories nesse ótimo gênero de glória que os Apóstolos e os Profetas escolheram para si e transmitiram18 a ti. Reconhece tua herança na cruz de Cristo, nos muitos trabalhos. Feliz quem pôde dizer: Trabalhei mais do que todos.19 Há glória, mas nela nada há de vão, mole ou indolente. Se o trabalho assusta, convide a recompensa; cada um receberá recompensa segundo seu trabalho. E, se ele trabalhou mais do que todos, não trabalhou tudo: ainda há lugar. Sai ao campo de teu Senhor e considera atentamente quantos espinhos e abrolhos ainda hoje nele crescem daquela antiga maldição. Sai, repito, ao mundo: o campo é o mundo, e foi confiado a ti. Sai para ele, não como senhor, mas como administrador, para veres e proveres aquilo de que deverás prestar contas. Sai, digo,20 com certos passos de tua atenta solicitude e de tua solícita atenção. Nem mesmo aqueles a quem se mandou ir pelo mundo inteiro o percorreram com a presença do corpo, mas com a providência da mente. Levanta também tu certos olhos de tua consideração e vê se as regiões não estão mais secas para o fogo do que brancas para a messe. Quantas coisas que julgavas frutos, examinadas de perto, parecerão antes espinheiros! Ou melhor, nem espinheiros: são árvores velhas e envelhecidas, mas não frutíferas, salvo talvez pelas bolotas ou vagens que os porcos comem. Até quando ocupam a terra? Se sais e vês isso, não te envergonhará que o machado permaneça ocioso, que tenhas recebido sem causa a foice apostólica?
13. Para esse campo saíra outrora o patriarca Isaque, quando Rebeca lhe veio ao encontro; e, como diz a Escritura, saíra para meditar.21 Ele, para meditar; tu, necessariamente, para extirpar. A meditação já deve ter-te precedido; o tempo de agir está diante de tuas mãos. Se começas agora a hesitar,22 é certamente tarde. Antes, segundo o conselho do Salvador, deverias ter-te sentado; antes, avaliado a obra, medido as forças, ponderado a sabedoria, comparado os méritos, calculado as despesas das virtudes. Age, pois: considera chegado o tempo da poda, se a meditação o precedeu. Se moveste o coração, deve agora mover-se a língua e mover-se também a mão. Cinge tua espada, a espada do espírito, que é a palavra de Deus.23 Glorifica tua mão e teu braço direito, exercendo vingança nas nações, repreensões nos povos, prendendo seus reis em grilhões e seus nobres em algemas de ferro. Se o fazes, honras teu ministério, e o ministério te honra. Não é um principado medíocre. É expulsar as feras de teus limites, para que teus rebanhos sejam levados com segurança aos pastos. Domarás os lobos, mas não dominarás as ovelhas. Recebeste-as para apascentá-las, não para oprimi-las. Se consideraste bem quem és, não ignoras que deves fazer isso. Para quem sabe e não faz, isso é pecado.24 Não esqueceste onde leste: O servo que conhece a vontade de seu senhor e não faz coisas dignas25 receberá muitos golpes.26 Assim agiam os Profetas, assim os Apóstolos. Foram fortes na guerra, não moles nas sedas. Se és filho dos Apóstolos e dos Profetas, faze tu também o mesmo. Reivindica tua nobre linhagem por costumes semelhantes, pois ela não é nobre senão pela nobreza dos costumes e pela fortaleza da fé. Por ela venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram as promessas.27 Este é o documento de tua herança paterna, que desenrolamos para que vejas a parte28 que te cabe. Reveste-te de fortaleza, e herdaste. Possui a fé, possui a piedade, possui a sabedoria, mas a sabedoria dos santos — ela é o temor do Senhor —, e tens o que é teu. Tens inteiro e sem fraude o campo dos pais. Campo preciosíssimo é a virtude. Campo bom é a humildade, no qual todo edifício espiritual cresce, construído como templo santo no Senhor. Por ela alguns chegaram a possuir as portas dos inimigos. Qual virtude pode igualmente derrotar toda a soberba dos demônios e a tirania dos homens? Embora, sem distinção de pessoa, seja uma torre de fortaleza diante do inimigo, não sei como sua força se mostra maior nos maiores e mais ilustre nos mais ilustres. Nenhuma gema resplandece mais, sobretudo em todo o ornamento do Sumo Pontífice. Quanto mais elevado que os demais, tanto mais ilustre aparece pela humildade, e mais ilustre do que si mesmo.
Caput VII: Retomando a pergunta anterior, examina com mais diligência quem ele seja
14. Talvez me censurem porque, sem ter explicado suficientemente as primeiras partes, minha pena passou não sei como às segundas, começando a descrever como deves ser antes de exprimir plenamente quem és. Creio que, envergonhada de ver nu um homem posto no mais alto cume, ela se apressou a revesti-lo de suas insígnias. Sem elas, quanto mais ilustre, tanto mais disforme pareceria. Acaso se pode esconder a desolação de uma cidade posta sobre o monte, ou ocultar-se a fumaça de uma lâmpada apagada sobre o candelabro? Um macaco no telhado, um rei insensato sentado no trono. Ouve agora meu cântico, menos suave, é verdade, mas salutar. Coisa monstruosa: grau supremo e ânimo ínfimo; primeira sé e vida baixa; língua grandiloquente e mão ociosa; muito discurso e fruto nenhum; rosto grave e ato leviano; imensa autoridade e estabilidade vacilante. Aproximei o espelho: reconheça nele o rosto disforme; alegra-te de encontrar o teu diferente. Examina-te, contudo, para que, mesmo havendo em ti motivo justo de agrado, não te falte também aquilo em que devas desagradar-te. Quero que te glories pelo testemunho de tua consciência, mas não menos que te humilhes por ele. Rara é a voz: De nada me acusa a consciência.1 Caminhas com mais cautela nos bens se os males tampouco ficam ocultos. Por isso, como disse, conhece-te, para que, entre as angústias que não faltam, desfrutes do bem da consciência; sobretudo, porém, para saberes o que te falta. A quem nada falta? Tudo falta àquele que julga nada lhe faltar. E se és Sumo Pontífice? Acaso, por seres Sumo Pontífice, és sumo? Sabe que és ínfimo, se te julgas sumo. Quem é sumo? Aquele a quem nada pode ser acrescentado. Erras gravemente se julgas ser esse. Longe disso. Não és dos que consideram as dignidades como virtudes. Deixa essa opinião aos Augustos e a outros que não temeram ser venerados com honras devidas aos deuses,2 como Nabucodonosor, Alexandre, Antíoco e Herodes. Considera, porém, que és chamado sumo não por consumação, mas por comparação. E não julgues que falo de comparação de méritos, mas de ministérios. Assim te considere o homem: ministro de Cristo e, sem prejuízo da santidade de quem quer que seja, certamente o sumo entre os ministros. Quero que te esforces por chegar ao sumo, não que te julgues sumo ou queiras sê-lo antes de o seres. Como progredirás, se já te bastas? Não te seja penoso investigar o que falta, nem vergonhoso confessá-lo. Fala também tu com a voz de teu predecessor: Não que eu já tenha alcançado ou já seja perfeito; e ainda: Não julgo tê-lo alcançado.3 Esta é a ciência dos santos, muito distante daquela que incha. Quem a aumenta, aumenta também a dor;4 mas nenhum sábio jamais fugiu dessa dor. É uma dor medicinal, pela qual se expulsa o entorpecimento letal do ânimo endurecido e impenitente. Por isso era sábio quem pôde dizer: Minha dor está sempre diante de mim.5 Agora devemos retomar o que resta, se algo resta, daquele ponto do qual nos desviamos há pouco.
Caput VIII: Discorre sobre a excelência da dignidade e do poder pontifícios
15. Vamos, investiguemos ainda com mais diligência quem és,1 isto é, que pessoa representas por algum tempo na Igreja de Deus. Quem és? Grande sacerdote, Sumo Pontífice. És príncipe dos bispos, herdeiro dos Apóstolos; por primado, Abel; por governo, Noé; por patriarcado, Abraão; por ordem, Melquisedeque; por dignidade, Aarão; por autoridade, Moisés; por julgamento, Samuel; por poder, Pedro; por unção, Cristo. És aquele a quem foram entregues as chaves, a quem foram confiadas as ovelhas. Há, certamente, outros porteiros do céu e pastores de rebanhos; mas tu herdaste ambos os nomes acima dos demais, de modo tanto mais glorioso quanto mais distinto. Eles têm rebanhos determinados, cada um o seu; a ti foram confiados todos, a um só um único rebanho. E não somente das ovelhas, mas também dos pastores és o único pastor de todos. Perguntas como o provo? Pela palavra do Senhor. A qual, não digo dos bispos, mas até dos Apóstolos, foram confiadas assim, absoluta e indistintamente, todas as ovelhas? Se me amas, Pedro, apascenta minhas ovelhas.2 Quais? O povo desta ou daquela cidade, região ou mesmo3 de algum reino? Minhas ovelhas, diz. Para quem não está claro que não designou algumas, mas atribuiu todas? Nada se excetua onde nada se distingue. E talvez estivessem presentes os demais condiscípulos quando, confiando-as a um, recomendou a todos a unidade num só rebanho e num só pastor, segundo aquilo: Uma é minha pomba, minha formosa, minha perfeita.4 Onde há unidade, há perfeição. Os outros números não têm perfeição, mas divisão, pois se afastam da unidade. Por isso, os outros receberam cada qual um povo, conhecendo o mistério. Enfim, Tiago, que parecia coluna da Igreja, contentou-se somente com Jerusalém, cedendo a universalidade a Pedro. Belamente foi colocado ali para suscitar descendência ao irmão morto, onde este foi morto, pois era chamado irmão do Senhor.5 Cedendo o irmão do Senhor, quem ousaria intrometer-se na prerrogativa de Pedro?
16. Portanto, segundo teus cânones, os outros foram chamados a uma parte da solicitude; tu foste chamado à plenitude do poder. O poder dos outros se limita a fronteiras determinadas; o teu estende-se até sobre aqueles que receberam poder sobre outros. Não podes, surgindo uma causa, fechar o céu a um bispo, depô-lo do episcopado e até entregá-lo a Satanás? Permanece, pois, inabalável teu privilégio, tanto nas chaves que te foram dadas quanto nas ovelhas que te foram confiadas. Recebe outro sinal que igualmente confirma tua prerrogativa.6 Os discípulos navegavam, e o Senhor apareceu na praia, e, o que era mais jubiloso, em seu corpo ressuscitado. Sabendo Pedro que era o Senhor, lançou-se ao mar e assim chegou a ele, enquanto os outros chegaram de barco.7 Que significa isso? É o sinal do pontificado singular de Pedro, pelo qual recebeu para governar não somente um barco, como cada um dos demais o seu, mas o próprio século. O mar é o século; os barcos, as Igrejas. Por isso, em outra ocasião, caminhando sobre as águas à semelhança do Senhor, designou-se como único vigário de Cristo, que deveria presidir não a um só povo, mas a todos, pois as muitas águas são muitos povos.8 Assim, embora cada um dos demais tenha a sua, foi-te confiada uma única e enorme nau, constituída de todas: a própria Igreja universal, difundida por todo o orbe.
Caput IX: Recomenda a consideração da própria natureza
17. Eis quem és. Mas não esqueças também o que és; eu tampouco esqueci que prometi retomá-lo em momento oportuno. Como é oportuno considerares, com aquele que és, também o que antes eras! Que digo: eras? Ainda és. Por que deixar de contemplar o que não deixaste de ser? Uma só é a consideração do que foste e do que és; outra, de quem foste feito. Esta não deve expulsar aquela no exame de ti. És ainda, como disse, o que eras; e não o és menos do que aquilo em que depois foste feito, talvez o sejas mais. Aquilo recebeste ao nascer; isso te foi emprestado, não foste transformado nisso. Aquilo não foi rejeitado; isto foi acrescentado. Tratemos ambos conjuntamente, pois, como recordo ter dito, as duas coisas, comparadas entre si, se tornarão mais úteis. Disse acima que, ao considerares o que és, apresenta-se a natureza pela qual és homem, pois homem nasceste. Quando perguntas quem és, responde-se com o nome da pessoa, que é bispo; isso foste feito, não nasceste. Qual dessas coisas te parece ser mais puramente tua e pertencer-te mais essencialmente: aquela em que foste feito ou aquilo que nasceste? Não é o que nasceste? Aconselho-te, pois, a considerar1 sobretudo aquilo que sobretudo és: homem, isto é, aquilo que nasceste.
18. E deves atender não apenas ao que nasceste, mas a como nasceste, se não queres ser privado do fruto e utilidade de tua consideração. Retira agora esses aventais hereditários, amaldiçoados desde o princípio. Rasga o véu de folhas que esconde a vergonha, mas não cura a ferida. Apaga o ornato dessa honra fugaz e o brilho da glória mal colorida, para que consideres, nu, o homem nu, pois nu saíste do ventre de tua mãe.2 Acaso saíste de ínfulas? Cintilante de gemas, coberto de sedas em flor, coroado de plumas ou carregado de metais? Se dissipares e soprares da face de tua consideração todas essas coisas como nuvens da manhã, que passam depressa e logo desaparecerão, apresentar-se-á a ti o homem nu, pobre, miserável e digno de compaixão: homem que sofre por ser homem, se envergonha de estar nu, chora por ter nascido, murmura por existir; homem nascido para o trabalho,3 não para a honra; nascido de mulher e, por isso, com culpa; vivendo pouco tempo e, por isso, com medo; cheio de muitas misérias4 e, por isso, com pranto. E verdadeiramente muitas, pois são do corpo e da alma ao mesmo tempo. O que está livre da calamidade naquele que nasce no pecado, com corpo frágil e mente estéril? Está verdadeiramente cheio delas aquele em quem à fraqueza do corpo se acrescentam a insensatez do coração, a herança da imundície e a condenação à morte. União salutar: para que, pensando em ti como Sumo Pontífice, atendas ao mesmo tempo que não foste, mas és cinza vilíssima. Imite o pensamento a natureza; e imite também, o que é mais digno, o Autor da natureza, unindo o sumo ao ínfimo. Não uniu a natureza, na pessoa do homem, o sopro da vida ao barro vil? Não uniu o Autor da natureza, em sua pessoa, o Verbo e o barro? Toma, assim, teu modelo tanto da constituição de nossa origem quanto do mistério da redenção, para que, sentado no alto, não penses coisas altas, mas penses humildemente de ti e concordes com os humildes.
Caput X: Expõe o terceiro membro da consideração de si: como ele seja
19. Portanto, se consideras quão grande és, pensa também, e sobretudo, como és. Essa consideração te mantém em ti; não permite que te afastes, nem andes em coisas grandes e maravilhosas acima de ti. Permanece em ti. Não te deixes lançar abaixo, nem elevar acima, nem escapar para mais longe, nem estender para mais largo. Conserva o meio, se não queres perder a medida. O lugar do meio é seguro. O meio é a sede da medida, e a medida é virtude. O sábio considera exílio toda morada1 fora da medida. Por isso, não habita no longo, que vai além da medida; nem no largo, que está fora dela; nem no alto ou no profundo, pois um está acima, o outro abaixo. O comprimento costuma ter por termo a eliminação; a largura, a cisão; a altura, a ruína; a profundidade, a absorção. Digo isso de modo mais claro, para que não julgues que falo daquilo que o Apóstolo exorta a compreender com todos os santos: comprimento, largura, altura e profundidade,2 assunto de outra discussão e de outro tempo.3 Agora chamo longo ao homem que promete a si uma vida mais longa; largo, quando o ânimo se estende a cuidados supérfluos; alto, quando presume de si mais do que deve; profundo, quando se abate em excesso. Quem mede para si longos tempos não entra verdadeiramente no caminho da eliminação, ultrapassando os limites da vida por uma preocupação mais prolongada? Daí vem que os homens, exilados de si mesmos no presente pelo esquecimento, migram por uma vã preocupação a outros séculos, que não lhes serão úteis, ou melhor, nem sequer existirão. Do mesmo modo, o ânimo distendido em muitas coisas necessariamente é dilacerado por muitos cuidados. A extensão imoderada produz enfraquecimento; e o enfraquecimento excessivo, ruptura. Que é a alta presunção senão queda ruinosa? Leste: Antes da ruína, exalta-se o coração.4 E, ao contrário, que é o abatimento excessivo da pusilanimidade senão uma espécie de absorção desesperada? O forte não se deixará lançar nela. O prudente não se deixará levar pela incerteza de uma vida mais longa. O modesto moderará os cuidados, refreará os supérfluos e não faltará aos necessários. O justo não presumirá coisas acima de si, mas falará com o justo: Ainda que eu seja justo, não levantarei a cabeça.5
Caput XI: Recomenda seriamente ao pontífice um exame sério de si
20. Caminha, pois, com cautela nessa consideração de ti e procede com toda equidade, para que não te atribuas mais do que é verdadeiro nem te poupes mais do que é justo. Atribuis a ti mais do que é verdadeiro não somente arrogando-te o bem que não tens, mas também atribuindo a ti o que tens. Distingue vigilantemente como és por ti mesmo e como és pelo dom de Deus, e não haja dolo em teu espírito. Haverá, porém, se não repartires fielmente e não restituíres sem fraude o que é teu a ti e o que é de Deus a Deus. Não duvido de que estás persuadido de que os males vêm de ti, os bens do Senhor. Ao considerares como és, deves também recordar como foste. Compare-se o que veio depois com o que veio antes. Progrediste na virtude, na sabedoria, no entendimento, na suavidade dos costumes, ou acaso — longe disso — regrediste? És mais paciente ou mais impaciente que de costume, mais iracundo ou mais brando, mais insolente ou mais humilde, mais afável ou mais austero, mais fácil ou mais difícil de aplacar, mais pusilânime ou magnânimo, mais sério ou um pouco mais dissoluto, mais temente ou talvez mais confiante do que convém? Que vasto campo se abre para ti nesse gênero de consideração! Menciono poucas coisas, apresentando-as como sementes; não sou eu quem semeia, mas dou a semente ao semeador. É preciso que conheças teu zelo, tua clemência e também a discrição que modera essas virtudes: como és ao perdoar as injúrias, como ao vingá-las, quão previdente observador da medida, do lugar e do tempo em ambos os casos. Essas três coisas devem ser inteiramente consideradas no uso dessas virtudes, para que não deixem de ser virtudes se forem encontradas sem elas: pois não é a natureza, mas o uso, que faz delas virtudes. Sabe-se que, em si mesmas, são indiferentes. Cabe a ti, abusando e confundindo, fazê-las vícios, ou, usando-as bem e ordenadamente, virtudes. Quando se obscurece o olho da discrição, costumam usurpar umas às outras os lugares e ocupar seus limites. Duas são as causas dessa obscuridade: a ira e um afeto demasiado brando; este debilita o rigor do julgamento, aquela o precipita. Como não correrão perigo, por causa de um ou de outro, a piedade da clemência ou a retidão do zelo? O olho perturbado pela ira nada contempla com clemência; inundado por certa moleza fluida e efeminada do ânimo, não vê o que é reto. Não serás inocente se punires aquele a quem talvez deverias poupar, ou se poupares aquele que deveria ser punido.