9. Aí também podes perceber uma suavíssima harmonia e conexão das virtudes, e como uma depende da outra. Como vês neste ponto, a prudência é mãe da fortaleza; e qualquer audácia que a prudência não gerou não é fortaleza, mas temeridade. É ela também que, assentada como árbitra entre os prazeres e as necessidades, demarca de ambos os lados os limites por fronteiras certas, atribuindo e concedendo às necessidades o que basta e retirando dos prazeres o que é excessivo; e assim forma, a partir de um e outro, uma terceira virtude, chamada temperança. A própria consideração julga intemperante tanto aquele que obstinadamente subtrai o necessário quanto aquele que concede o supérfluo. A temperança, portanto, não consiste apenas em cortar o supérfluo, mas também em admitir o necessário. O Apóstolo parece não somente defensor, mas autor dessa sentença, pois ensina que o cuidado de nossa carne não se leve a efeito nos desejos. Dizendo que não se leve a efeito o cuidado da carne, coíbe o supérfluo; acrescentando nos desejos,1 não exclui o necessário. Por isso, não me parece inteiramente absurda a definição de quem diz que a temperança nem corta a necessidade, nem excede a medida, conforme a máxima do filósofo: « Nada em excesso. »
10. Quanto à justiça, que é uma das quatro, não é evidente que a mente deve ser precedida pela consideração, a fim de nela se formar? Com efeito, é necessário que primeiro pense em si mesma, para tomar de si a norma da justiça: não fazendo ao outro o que não quer que lhe façam, nem recusando ao outro o que deseja que lhe façam. É claro que nesses dois pontos consiste o estado íntegro da justiça. Mas ela tampouco está sozinha. Contempla agora comigo sua bela conexão e coerência com a temperança e, igualmente, a de ambas com as duas superiores, isto é, a prudência e a fortaleza. Pois, visto que se chama parte da justiça não fazer ao outro o que alguém não quer que se faça a si mesmo, e sua perfeição é aquilo que diz o Senhor: Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles,2 nenhuma dessas duas coisas existirá, se a própria vontade, da qual se tira toda a forma, não estiver ordenada de modo que nem queira algo supérfluo, nem rejeite supersticiosamente algo necessário, o que pertence à temperança. Enfim, para que a própria justiça seja justa, a temperança lhe impõe medida. Não sejas justo em excesso, diz o Sábio,3 mostrando com isso que não se deve aprovar uma justiça que não seja refreada pelo governo da temperança. E a própria sabedoria tampouco rejeita esse freio da temperança, pois Paulo, falando segundo a sabedoria que Deus lhe deu, diz que se deve não saber mais do que convém saber, mas saber com sobriedade.4 Inversamente, o Senhor mostra ser a justiça necessária à temperança, quando, no Evangelho, repreende a temperança daqueles que se abstinham para serem vistos pelos homens jejuando.5 Havia temperança no alimento, mas não justiça no ânimo, porque pretendiam agradar não a Deus, mas aos homens. Como, por sua vez, esta ou aquela poderia existir sem fortaleza, visto ser próprio da fortaleza, e não pequena, conter seu querer e não querer entre estreitos limites, entre o pouco e o demasiado, para que a vontade se contente com aquele único meio-termo, nu, puro, constante em si, igual em toda a sua extensão, como que igualmente aparado de todos os lados, o qual, somente ele, consta ser próprio da virtude?
11. Dize-me, peço, se podes: a qual dessas três virtudes julgas que se deve atribuir sobretudo esse cerne, que é de tal modo o limite de todas que parece próprio de cada uma? Seria ele a própria virtude e nada mais? Mas assim a virtude não seria múltipla, e todas seriam uma só. Ou antes, porque sem ele não há virtude, ele é, de algum modo, a força íntima e única de todas, a medula das virtudes, na qual se unem de tal maneira que todas parecem uma só?6 Sobretudo porque não o compartilham participando apenas em parte, mas cada uma o possui todo e inteiro. Por exemplo, que há de mais próprio da justiça do que a medida? Do contrário, se deixa alguma coisa fora da medida, não atribui inteiramente a cada um o que é seu; e é precisamente isso o que lhe cabe fazer. Que há, ainda, de mais próprio da temperança, que é temperança justamente porque não admite nada imoderado? Mas penso que confessarás ser ela também, não menos, própria da fortaleza, pois é sobretudo esta que arranca e conquista com poder aquele puro meio-termo dos vícios que o assaltam e, por assim dizer, tentam sufocá-lo de ambos os lados, colocando-o como fundamento estável do bem e sede da virtude. Portanto, conservar a medida é justiça, é temperança, é fortaleza. Vê, porém, se não diferem nisto: na justiça, a coisa está no afeto; da fortaleza vem sua eficácia; a posse e o uso cabem à temperança. Resta mostrar que a prudência não está excluída dessa comunhão. Não é ela que primeiro encontra e percebe a medida, por muito tempo abandonada pela negligência do ânimo, encerrada como que num esconderijo pela hostilidade dos vícios e coberta pela névoa de sua antiguidade? Por isso te digo: poucos a percebem, porque poucos têm prudência. Assim, a justiça busca, a prudência encontra, a fortaleza conquista, a temperança possui. Não é meu propósito, neste lugar, discutir as virtudes; disse essas coisas para te exortar a reservar-te para a consideração, por cujo benefício se percebem essas e outras semelhantes. Não dedicar na vida nenhuma atenção a um ócio tão piedoso e útil não seria perder a vida?